Complexo do Alemão: 15 anos após UPP, tráfico e abandono persistem
Há exatamente 15 anos, em 28 de novembro de 2010, as forças de segurança ocuparam o Complexo do Alemão, marcando o início do projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A chegada de tanques e o policiamento de proximidade trouxeram uma onda de esperança por segurança e mudança.
No entanto, com o passar do tempo, a realidade voltou a ser sombria. Moradores relatam que a violência retornou com força, e a sensação de promessas não cumpridas é um sentimento generalizado na comunidade. A infraestrutura prometida e os serviços essenciais parecem ter desaparecido, deixando um rastro de abandono.
Essa reportagem baseada em informações divulgadas pelo g1 detalha como o Complexo do Alemão vive, 15 anos após a instalação das UPPs, um cotidiano marcado pela persistência do tráfico, tiroteios frequentes e a ausência do poder público.
Um Legado de Promessas Quebradas
“Quinze anos se passaram e nada foi feito aqui”, resume Rosemere Alves, empreendedora e moradora do Alemão há 57 anos. A expectativa de uma vida mais segura e com mais oportunidades se desvaneceu para muitos, que veem a região estagnada. A falta de investimentos e a descontinuidade de projetos deixam um sentimento de frustração.
Glória Alves Bezerra aponta a carência de serviços básicos: “Tiraram os garis comunitários. A gente passa por cima de lixo o tempo todo. É rato, mosquito, barata… Cada bicho horrível entrando dentro da tua casa”. A ausência de limpeza e saneamento básico impacta diretamente a qualidade de vida dos residentes.
Leia Rodrigues, também empreendedora local, lamenta: “Prometeram educação, curso técnico, teleférico… e olha como está o estado do nosso morro”. A visão é de um futuro que não se concretizou, com projetos de urbanização e desenvolvimento que não saíram do papel ou foram abandonados.
Investimentos Milionários e Projetos Paralisados
O Complexo do Alemão recebeu, ao longo dos anos, mais de R$ 800 milhões em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). No entanto, de 1.716 unidades habitacionais previstas, apenas 920 foram entregues. O PAC 2, focado em saneamento, habitação e contenção de encostas, também não avançou como esperado.
Um novo PAC, lançado há um ano, prevê R$ 200 milhões até o início de 2026, com novas promessas de obras. A prefeitura busca complementar esses investimentos com empréstimos. Contudo, a desconfiança dos moradores é palpável, dada a história de projetos inacabados.
A Serra da Misericórdia, local de intensos tiroteios, deveria ter se tornado um grande parque. Um projeto de R$ 14 milhões, firmado em 2012 entre a prefeitura e a Caixa Econômica Federal, nunca saiu do papel. A Caixa informou que a prefeitura rescindiu o acordo em 2014.
O Teleférico, Símbolo da Modernização Parada
O teleférico, símbolo da modernização do Complexo do Alemão, custou R$ 210 milhões e está parado há nove anos. Sua reabertura já foi adiada pelo menos 13 vezes. Mariluce Mariá relembra os tempos em que o teleférico facilitava o deslocamento: “Descia em 15 minutos, pegava o trem, em 25 minutos tava na Central do Brasil”.
O equipamento não só oferecia economia de tempo e dinheiro, mas também permitia que os moradores chegassem menos cansados em casa, com mais tempo para estudo e cuidado pessoal. A paralisação do teleférico agravou a dificuldade de acesso a diversas partes do morro.
Um escândalo de corrupção apontou superfaturamento de R$ 139 milhões, cerca de 25% do valor liberado. As estações, que antes abrigavam serviços como Detran, INSS e agências bancárias, hoje estão vazias. O governo do estado afirma que está investindo mais de R$ 240 milhões na recuperação do teleférico, com previsão de retorno no fim do próximo ano.
Violência e a Luta Pela Sobrevivência
Apesar das tentativas de pacificação, operações e tiroteios voltaram a ser rotina no Complexo do Alemão. Nos últimos anos, crianças como Eduardo, Paulo Henrique, Benjamin, João Victhor e Ágatha foram vítimas fatais da violência. Há um mês, uma megaoperação resultou na morte de 117 suspeitos e quatro policiais.
A Prefeitura do Rio informou que desenvolverá ações de pavimentação, construção de escadarias e acessos seguros, além de 192 unidades habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida. O governo federal mencionou a conclusão da demolição de um imóvel para a construção de um campus do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), aguardando aprovação municipal para licitação.
Apesar das novas promessas e investimentos anunciados, a comunidade do Complexo do Alemão anseia por mudanças reais e duradouras, que vão além da fachada e que resgatem a esperança de um futuro mais seguro e digno.