O escândalo que abalou o sistema financeiro brasileiro e suas pontes com o Supremo Tribunal Federal (STF).
Enquanto a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro dominava as manchetes, um complexo esquema de fraude envolvendo os bancos Master e de Brasília (BRB), estimado em R$ 12 bilhões, trazia à tona conexões surpreendentes com o Supremo Tribunal Federal (STF).
O Banco de Brasília, investigado por seu envolvimento na emissão de títulos de crédito falsos operados pelo Banco Master, é, paradoxalmente, patrocinador da reforma do Museu do STF. O projeto, que já apresentou inconsistências contábeis de R$ 50 milhões, agora está sob escrutínio.
Além do patrocínio, outra coincidência chama a atenção: o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, foi contratado pelo Banco Master para negociar a venda de parte de sua operação ao BRB. Essas revelações, divulgadas pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, adicionam camadas de complexidade a um caso já espinhoso. O STF não esclareceu os detalhes do processo de patrocínio, nem se o contrato do museu será afetado, enquanto o BRB ainda não retornou aos contatos para comentar o assunto, conforme reportado pela Gazeta do Povo.
Inconsistência Contábil de R$ 50 Milhões na Reforma do Museu do STF
O Museu Ministro Sepúlveda Pertence, do STF, está passando por uma ampla reforma aprovada em 2019. O projeto, que visa expandir o espaço para quase mil metros quadrados, concentra o acervo no subsolo do edifício-sede. A primeira fase foi inaugurada em dezembro de 2021, com a disponibilização de uma visita virtual em janeiro de 2022.
No entanto, o projeto arquitetônico, idealizado pelo renomado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, enfrenta desafios financeiros. Um relatório de auditoria de 2025 identificou uma inconsistência contábil superior a R$ 56 milhões nas contas da corte em 2024. Deste valor, R$ 50 milhões referem-se a um pagamento adiantado, realizado sem registro de contrapartida, destinado às obras de expansão e adequação física do museu.
Esse montante foi pago em parcela única, cobrindo o período de novembro de 2024 a novembro de 2030, o que equivale a R$ 1 milhão mensalmente. Segundo o relatório, houve um erro na classificação da despesa. A Gazeta do Povo apurou que um pagamento de R$ 50 milhões foi efetuado em 9 de dezembro de 2024 à ONU/Unesco para um “projeto de cooperação técnica internacional entre o órgão e o STF para o projeto intitulado Museu do STF”.
Em resposta à Gazeta do Povo, em setembro, o STF afirmou que a questão é um “ajuste meramente contábil” e que a auditoria interna solicitou “ajustes técnicos relacionados ao registro contábil”. A Corte garante que a despesa “foi devidamente empenhada, paga e registrada conforme a legislação e as normas contábeis aplicáveis, e que não há que se falar em impacto financeiro ou prejuízo para os cofres públicos”.
BRB e Banco Master: Os Detalhes da Investigação de Fraude
O Banco Master teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central (BC) e seu presidente, Daniel Vorcaro, foi preso. O Banco de Brasília (BRB), por sua vez, segue operando, mas está sob investigação por seu suposto envolvimento nas operações fraudulentas. O presidente do BRB e o diretor de Finanças e Controladoria foram afastados de suas funções.
As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal indicam que a maioria dos negócios fraudulentos entre o Banco Master e o BRB envolveu empresas de fachada, como a Tirreno e The Pay Soluções de Pagamento, além da Oncoclínicas, que possuía investimentos no Master. O Banco Master alega que o Banco Central tinha conhecimento prévio dos acordos firmados entre as instituições.
O BRB informou que mais de R$ 10 bilhões dos R$ 12,76 bilhões em questão já foram liquidados ou substituídos, conforme contrato e sob acompanhamento do BC. O banco também declarou que o restante não representa exposição direta ao Banco Master.
Escritório da Família de Moraes e a Tentativa de Compra Negada pelo BC
A conexão entre o BRB, o Banco Master e o STF se aprofunda com a atuação do escritório comandado pela esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, que foi contratado pelo Banco Master para representá-lo judicialmente em algumas causas. Os filhos do ministro também atuam no mesmo escritório.
O Banco de Brasília tentou adquirir o Banco Master, mas a operação foi negada pelo Banco Central. Segundo as investigações, essa aquisição seria uma manobra para que o BRB e o Banco Master encobrissem suas operações fraudulentas. Embora legal, a contratação do escritório levantou questionamentos éticos e políticos sobre a proximidade da família de um ministro do STF com uma instituição financeira sob investigação.
O escritório Barci de Moraes informou que a pessoa responsável por atender questionamentos estava de férias e que nenhum dos advogados possuía autorização para falar com a imprensa. A reportagem não obteve sucesso em enviar e-mails com os questionamentos.
Outros Patrocínios do BRB em Destaque
O envolvimento do BRB em negócios e parcerias vai além do meio jurídico e empresarial, alcançando também o esporte e a cultura. O banco é um dos principais patrocinadores do Clube de Regatas do Flamengo, sendo responsável pelo banco digital Nação BRB Fla, e sua marca estampa a camisa do time profissional masculino.
O contrato inicial, firmado em 2020, foi renovado em abril do ano passado, com validade até dezembro de 2025, no valor de R$ 50 milhões, segundo o site Máquina do Esporte. O BRB também está envolvido na revitalização do Autódromo Internacional de Brasília, que voltará a sediar competições automobilísticas, como a Stock Car Pro Series.
O banco dá nome à Stock Car e patrocina alguns pilotos, garantindo que todos os contratos de patrocínio esportivo vigentes permanecem inalterados. O BRB patrocina ainda projetos nas áreas de arte, cultura e causas sociais, buscando retorno de imagem institucional e benefícios fiscais, negociais e sociais, desde que contemplem sua região de atuação e públicos de interesse.
As diretrizes de patrocínio do BRB excluem projetos de caráter religioso, político-partidário, que possam prejudicar a sociedade ou o meio ambiente, com má reputação, falta de integridade, que prejudiquem a imagem do banco, de natureza discriminatória ou cuja organização não tenha bom conceito perante a sociedade.