A perplexidade diante da naturalidade com que jornalistas admitem abusos em nome de uma “boa causa”
Um trecho de texto viralizou nas redes sociais, onde uma jornalista admite, com aparente tranquilidade, que Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), cometeu abusos e extrapolou suas atribuições em diversas ocasiões. No entanto, essa conduta teria sido aceitável, pois visava uma “boa causa”: o combate ao suposto golpismo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Essa postura levanta um debate crucial sobre a responsabilidade da imprensa e dos jornalistas diante de violações de direitos e do devido processo legal. A autora do texto, em suas próprias palavras, reconhece os excessos, mas os minimiza em nome de um objetivo maior, uma justificativa que, para muitos, é inaceitável.
A matéria original, divulgada pela Gazeta do Povo e escrita pela jornalista Jocelaine Santos, aprofunda essa discussão, analisando como a tolerância com tais atos, mesmo quando reconhecidos como abusos, contribui para o enfraquecimento do Estado de Direito. O texto original, que serviu de base para esta reportagem, argumenta veementemente contra a ideia de que “os fins justificam os meios” quando se trata de direitos fundamentais e da atuação das instituições.
A Obviedade dos Excessos do STF e a Cegueira Seletiva
Admitir que o STF e seus ministros cometeram excessos é, para a autora, uma obviedade. Ela descreve as violações como “cristalinas como água de fonte”, sugerindo que apenas aqueles cegos pela ideologia ou que deliberadamente ignoram os fatos não as enxergam. Essa “vista grossa” é considerada por ela como a mais nociva, transformando indivíduos em “cúmplices diretos do que culminou na deterioração do Estado de Direito no Brasil”.
O ponto central da crítica é a naturalidade com que se aceita a ultrapassagem de limites institucionais. Abusos, arbitrariedades e violações do devido processo legal são intrinsecamente desastrosos, independentemente de quem os sofre, quem os aplica ou de quais justificativas são apresentadas. Não pode haver um “tudo bem” para tais condutas.
Cumplicidade Silenciosa e Aplausos a Abusos
A cumplicidade, segundo a análise, se manifesta naqueles que, cientes do que ocorria com o país, viram o STF se autotransformar em um “Poder Supremo” que tudo faz e em tudo se intromete. Em vez de se manifestar, muitos optaram pelo silêncio ou, pior, aplaudiram os abusos e exaltaram os ministros. Essa omissão e apoio a condutas questionáveis são vistos como um fator direto na erosão das garantias democráticas.
A ideia de que “tudo bem” ministros da corte agirem além de suas atribuições por “uma boa causa” é enfaticamente rebatida. A autora argumenta que não existe causa justa que legitime o abuso, e, no caso específico, a tese do suposto golpe de Estado é considerada “tão fraca, tão vazia de provas, tão mirabolantemente e preguiçosamente estúpida que parece até roteiro de comédia de baixo orçamento da Netflix”.
A Crítica Seletiva e a Distância do Estado de Direito
A jornalista que admitiu os excessos de Moraes, mesmo criticando pontos como as prisões preventivas prolongadas sem acusação formal, as manobras jurídicas para evitar o plenário do STF e a morte de um detento na cadeia (descrita como uma “atrocidade”), também é apontada por uma atitude seletiva. Ela critica as relações de ministros com o Banco Master e a perda de “controles” que tornaram os magistrados “intocáveis”.
No entanto, essa crítica pontual, mas que ignora ou minimiza os abusos mais graves em nome de uma “boa causa”, é o que, na visão da autora, afasta o Brasil do Estado de Direito. A atitude seletiva, seja de jornalistas ou de qualquer cidadão, diante de arbítrios, perpetua um ciclo perigoso onde a justiça se torna parcial e os direitos fundamentais ficam em segundo plano.
O Perigo da Ideologia sobre a Razão
A reflexão se estende ao perigo de se deixar levar pela máxima de que “os fins justificam os meios”. Aceitar que um poder ultrapasse seus limites e que ministros da mais alta corte abandonem o devido processo legal, mesmo que supostamente por uma “boa causa”, é apontado como uma das atitudes mais estúpidas. Quando a ideologia e o ódio dominam, substituindo o raciocínio lógico, os problemas se tornam invisíveis.
A especialista Jocelaine Santos, em sua análise original, reforça que um abuso, uma arbitrariedade ou uma violação do devido processo legal são prejudiciais em si mesmos. A justificativa de uma “boa causa” não os torna aceitáveis, e há limites intransponíveis que jamais podem ser ultrapassados, sob pena de se comprometer a própria estrutura de um Estado Democrático de Direito.