Entidades setoriais apontam Selic elevada, déficit primário de R$ 75 bilhões e volatilidade política como fatores que devem puxar o freio na economia em 2026
A economia brasileira deve perder velocidade em 2026, com impacto sobre indústria, serviços e agronegócio, segundo projeções de entidades setoriais.
O diagnóstico combina juros altos, desequilíbrio fiscal e a volatilidade política típica de um ano eleitoral, fatores que devem limitar o consumo e os investimentos.
Os números e as avaliações consultadas mostram um cenário mais pessimista que o necessário para uma retomada vigorosa, conforme informação divulgada pelo UOL
Por que a economia deve desacelerar
Segundo a Confederação Nacional da Indústria, e também a Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil, o Produto Interno Bruto deve crescer 1,8% do PIB em 2026, cifra que aparece acima da estimativa do Banco Central, de 1,6%, mas ainda representa uma desaceleração.
Para a CNI, um dos motores da perda de dinamismo será a política monetária restritiva. Mário Sérgio Telles, diretor-adjunto de Desenvolvimento Industrial, Tecnologia e Inovação da CNI, afirma, “Um dos motivos para a desaceleração da economia é o fato de que o crédito novo para gerar consumo vai diminuir“, referindo-se à perspectiva de manutenção da taxa Selic em patamar elevado.
Ele acrescenta que, mesmo assim, o movimento “será amenizado pela expansão fiscal por parte do governo, com a isenção do Imposto de Renda e geração de empregos“, apontando efeitos mitigadores que podem aparecer no consumo.
Impacto por setor, indústria em alerta
A política monetária contracionista leva a CNI a prever um crescimento de apenas 1,1% na indústria em 2026, enquanto o Banco Central elevou sua estimativa para o setor de 1,4% para 1,9% em sua última atualização.
A indústria de transformação merece atenção, porque a CNI projeta alta de apenas 0,5% para o segmento, o que deve afetar o desempenho setorial e o mercado de trabalho.
Na construção civil, a CNI cita como entraves as “taxas de juros reais ainda elevadas e a alta das importações”. A entidade, porém, não descarta efeitos positivos caso ocorram mudanças nas regras do financiamento imobiliário e novos estímulos.
Agronegócio, exportações e riscos aos resultados
Entre as divergências, o agronegócio aparece mais otimista. A CNA projeta crescimento do PIB agropecuário de 2,3% em 2026, com 2025 fechando em expansão de 8,3%.
O Banco Central, por sua vez, estima apenas 0,5% para o setor, e a CNI considera crescimento zero, refletindo um possível “recuo de 3,7% na produção vegetal“, puxado pela retração no cultivo de milho.
Sobre comércio exterior, a CNI aponta efeitos de tarifas dos Estados Unidos e uma safra de grãos mais modesta como fatores para reduzir o ritmo das exportações em 2026. A CNA chama atenção para produtos com tarifas adicionais, e Sueme Mori, diretora de Relações Internacionais da CNA, alerta, “Se eles não saírem da lista de exceções, estamos projetando um impacto negativo de US$ 2,7 bilhões na pauta agropecuária“.
Inflação, juros, fiscal e mercado de trabalho
As entidades projetam uma inflação acima da meta, com a CNI estimando 4,1% e a CNA 4,16%, ambas acima da expectativa do Banco Central de fechar o ano em 3,5%. A projeção geral do mercado, medida pelo Boletim Focus, também aponta 4,16%.
Em relação à Selic, a CNI aposta no início de um ciclo de cortes no primeiro trimestre, mas com a taxa ainda em nível contracionista ao final do ano, em 12% ao ano. O Boletim Focus registra expectativa de fechamento em 12,25%.
No mercado de trabalho, a CNI projeta que a massa de rendimento real avançará 3,4% em 2026 e que a taxa de desocupação encerrará o ano em 5,6%, acima dos 5,4% registrados no trimestre terminado em outubro de 2025.
Quanto às contas públicas, tanto a CNI quanto a CNA estimam um déficit primário em torno de R$ 75 bilhões, ou 0,6% do PIB, cifra alinhada ao Boletim Focus.
Bruno Lucchi, diretor-técnico da CNA, resume a preocupação fiscal, “Em ano de eleições, dificilmente o governo cortará gastos. Corremos o risco de a inflação subir, o que é prejudicial para o consumo dos produtos do setor e redução da taxa Selic“.
Panorama externo, câmbio e pressões futuras
Do lado externo, mudanças nas relações comerciais dos Estados Unidos, redução de importações chinesas de grãos e investigações sobre fornecedores podem criar volatilidade para as exportações brasileiras.
O real pode ser beneficiado pelo diferencial de juros frente ao dólar, atraindo capital estrangeiro e contribuindo para valorização, segundo a CNA, mas a percepção de fragilidade fiscal em ano de eleições pode provocar saída de recursos e aumentar a volatilidade cambial.
Em conjunto, esses fatores mostram que a desaceleração da economia em 2026 é o resultado de pressões domésticas e externas, com impactos diferenciados por setor e importantes incertezas até o período eleitoral.