Reforma tributária força digitalização e exige inteligência fiscal, aumenta preço de insumos e impõe novas obrigações a partir de janeiro de 2026, afetando sobretudo pequenos produtores
A **reforma tributária** que começa a ser aplicada em 2026 promete simplificar o sistema, mas vai impor nova camada de burocracia e custos ao produtor rural.
Máquinas, fertilizantes e defensivos perdem isenções, novos impostos precisam ser destacados nas notas e o campo será obrigado a digitalizar processos e usar um novo identificador, o CNPJ alfanumérico.
Quais são os prazos, os impactos nos insumos e quem sai perdendo ou ganhando com a mudança, você confere a seguir, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
O que muda já em 2026 e o cronograma de implementação
A partir de 1.º de janeiro de 2026, entram em cena dois novos tributos, o IBS e a CBS, que substituem tributos estaduais, municipais e federais, exigindo destaque na Nota Fiscal Eletrônica e na NFC-e.
Em 2026, IBS e CBS terão alíquotas simbólicas de 0,1% e 0,9%, e, em uma venda de R$ 100 mil, isso representa R$ 100 e R$ 900 que serão abatidos dos impostos antigos.
A CBS ganha força em 2027, com alíquota entre 8% e 9%, substituindo PIS e Cofins, enquanto o IBS será implementado entre 2029 e 2032, com o sistema completo em vigor em 2033.
Fim de isenções e efeito direto no custo dos insumos
O fim de benefícios fiscais históricos para o agronegócio é uma das mudanças mais sensíveis da **reforma tributária**. Fertilizantes, defensivos e máquinas, hoje com alíquota zero de PIS/Cofins, passarão a ser tributados.
Mesmo com um redutor de 60% sobre a alíquota padrão, a carga efetiva sobre insumos deve ficar entre 10% e 11%, pressionando margens já apertadas, especialmente em culturas de baixa rentabilidade.
Há ainda o risco político do Imposto Seletivo, que, embora desenhado para desestimular produtos nocivos, pode ser usado para sobretaxar insumos agrícolas com justificativas ambientais, conforme alertam especialistas.
Créditos, informalidade e o impacto sobre pequenos produtores
O princípio da não cumulatividade da reforma transforma o crédito tributário em elemento central. Porém, a informalidade no campo impede a recuperação desses créditos, corroendo margens de quem compra de fornecedores sem nota fiscal.
Produtores com faturamento abaixo de R$ 3,6 milhões anuais podem optar por permanecer como não contribuintes, gerando um crédito presumido para seus compradores, mas esse crédito pode ser inferior ao tributo real, tornando o pequeno produtor menos atraente para indústrias e cooperativas.
Segundo especialistas, produtores com faturamento acima de R$ 3,6 milhões anuais, cerca de 5% do total, serão obrigados a entrar no regime regular de tributação, elevando a burocracia e os custos operacionais.
Digitalização, CNPJ alfanumérico e o custo da inteligência fiscal
A **reforma tributária** impõe a digitalização do campo, com o novo CNPJ alfanumérico, o aplicativo Nota Fiscal Fácil e o Provedor de Assinatura e Autorização, que permitem a sindicatos e cooperativas assinar notas em nome dos associados.
Roberto de Lázari, diretor da consultoria All Tax, classifica a mudança como uma redistribuição das “placas tectônicas da economia”, e afirma que “A inteligência fiscal deixará de ser acessória para virar questão de sobrevivência”.
Atualizar ERPs, revisar cadastros de produtos, treinar equipes e contratar consultoria serão despesas obrigatórias para médio e grande produtor. Para pequenos produtores, a barreira de entrada ao mercado formal aumenta significativamente.
Vencedores, perdedores e riscos políticos
A reforma tributária tende a beneficiar grandes produtores e empresas integradas, que já contam com sistemas digitais e equipes contábeis, enquanto pequenos produtores correm risco de exclusão ou pressão para reduzir preços.
Cooperativas e sindicatos ganham importância estratégica, por meio do PAA, e fornecedores de tecnologia, ERPs e consultorias estarão entre os grandes beneficiados pelo aumento da demanda por digitalização.
Bianca Xavier, tributarista, alerta, “Não existe uma receita de bolo e certamente haverá perdedores”, enquanto o tributarista Alessandro Batista considera que o Imposto Seletivo pode virar “uma arma letal apontada contra o produtor rural, que não terá como se defender”.
O que o produtor precisa fazer agora
Especialistas recomendam que produtores iniciem a atualização de sistemas de gestão ainda em 2025, regularizem pendências com a Receita Federal e formalizem cadeias de fornecimento para preservar o direito a créditos.
A adaptação imediata inclui investimentos em software, treinamento e, em muitos casos, migração para pessoa jurídica, já que a pejotização pode se tornar uma resposta à maior fiscalização e à nova carga sobre rendimentos.
O calendário da reforma dá algum tempo para a transição até 2033, mas a burocracia e os custos começam a afetar a operação já em 2026, tornando a preparação antecipada uma questão de competitividade.