O alinhamento entre chavismo e petismo, revelado pela defesa de Lula a Nicolás Maduro, reacende dúvidas sobre a soberania brasileira, o isolamento diplomático e o custo político externo
A captura de Nicolás Maduro pelos EUA colocou o Brasil no centro de um debate inflamado sobre alinhamentos ideológicos e prioridades de política externa.
Defensores do presidente afirmam que a postura é defesa da paz e da soberania regional, opositores veem cumplicidade e risco de isolamento.
O tema ganhou tom mais agudo por causa da história de apoio petista ao regime chavista, inclusive em declarações públicas do próprio presidente, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
O histórico de aproximação entre petismo e chavismo
Ao longo de anos, foram vários gestos públicos que aproximaram o PT do chavismo venezuelano, incluindo encontros de Estado e reconhecimento diplomático alto.
Em textos publicados na Gazeta do Povo, o colunista Guilherme Fiuza lembra que Lula chegou a classificar o regime como um “excesso de democracia“, frase que circula como exemplo da tolerância petista em relação ao autoritarismo.
Essa história não é só retórica, ela moldou práticas e prioridades externas, e explica por que a defesa de Maduro provoca reações tão fortes no cenário doméstico.
Crise na Venezuela e ameaças ao alinhamento diplomático do Brasil
A acusação de fraude nas eleições venezuelanas de 2024, “segundo a OEA e o Carter Center“, intensificou a pressão internacional sobre Caracas e sobre regimes que o apoiam.
Para analistas, a posição de Brasília, quando vista como apoio a Maduro, aumenta o risco de isolamento do Brasil em fóruns multilaterais e na agenda climática, já que o país chamou a atenção global com a COP 30 em curso.
Além do custo diplomático, existe o risco de afetar cooperações econômicas e ambientais, num momento em que o país busca consolidar lideranças regionais.
Retórica, narrativa e disputa política interna
O debate entre “defesa da soberania” e “apologia a um regime autoritário” virou munição política no Brasil. Para alguns, argumentar que Lula apenas defende o direito internacional é insuficiente frente a anos de apoio explícito ao chavismo.
Ao mesmo tempo, parte do círculo do presidente tenta ajustar a narrativa, apresentando a postura como ato de equilíbrio e responsabilidade regional, não como afinidade ideológica.
Essa disputa retórica também cria espaço para simplificações, com opositores acusando o governo de cumplicidade e aliados chamando essas críticas de campanha política, o que complica a construção de consensos diplomáticos.
O que está em jogo para o Brasil
Em primeiro lugar, a reputação internacional do país e a capacidade de atuar como mediador em crises regionais, caso seja visto como parcial ou alinhado claramente com um lado.
Em segundo lugar, a política interna, porque a imagem de proximidade entre chavismo e petismo alimenta narrativas de polarização que influenciam eleições e decisões legislativas.
Por fim, há riscos concretos de perda de influência em organismos multilaterais e de redução de cooperação em áreas estratégicas, tudo isso numa conjuntura em que o Brasil busca papel central nas negociações climáticas e econômicas.
O debate deve continuar, com foco em fatos e em responsabilidades diplomáticas, e sem abrir mão de avaliar claramente consequências práticas de escolhas de alinhamento externo.