Análise do documentário do 8/1 do STF, produzido pela TV Justiça, que concentra relatos de servidores, adota uma estética cinematográfica e omite imagens e grupos não vândalos
O filme começa com uma advertência sonora e visual que condiciona a leitura do espectador, enquanto foca em relatos de quem estava dentro dos prédios no dia 8 de janeiro.
A narrativa privilegia depoimentos de vigilantes, bombeiros civis e trabalhadores da limpeza, e usa imagens projetadas sobre rostos para reforçar um tom épico e dramático.
Ao centrar-se em funcionários, a produção reduz a visibilidade de manifestantes que não praticaram vandalismo, e omite imagens que poderiam complicar a versão oficial, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
Produção, estética e objetivo declarado
A peça, assinada pela TV Justiça, abre com a frase de impacto, “Atenção! Este documentário contém cenas de […] atentados à democracia”. Essa escolha sinaliza um recorte claro, que transforma depredação em ataque institucional.
A estética escolhida, com projeções sobre os entrevistados, trilha sonora épica e imagens em câmera lenta, confere ao material um tom cinematográfico, e, segundo críticos, mais performático do que informativo.
Omissões relevantes e provas não disponibilizadas
Trechos que poderiam relativizar a narrativa não foram incluídos, como o caso de Roberta Jérsyka, que registrou câmeras de segurança e, segundo reportagens, teria apenas orado dentro dos prédios.
Além disso, durante as investigações, Flávio Dino informou que as imagens das câmeras de segurança haviam sido perdidas por “razões contratuais”. Das 185 câmeras instaladas, o ministro entregou registros de menos de dez.
Escolha de entrevistados e exploração do medo
O documentário destaca o temor de funcionários e mostra mensagens pessoais, aproximando o público da sensação de fragilidade. Um agente afirma, “Lembrando que o STF é 360 graus vulnerável. Não tem como você proteger isso aqui com 70 homens. Utilizamos de todos os recursos não letais e conseguiram romper. Restou pra nós a marquise”.
O foco em cargos de baixo escalão e em relatos de medo, segundo observadores, serve para fragilizar e, ao mesmo tempo, reforçar a imagem da Corte como vítima e protagonista na resposta.
O constitucionalista Alessandro Chiarottino é citado no debate sobre o papel institucional do tribunal, ao afirmar, “Esse documentário me parece mais uma ação institucional totalmente inadequada”, argumento usado para questionar a adequação de uma Corte produzir material em defesa própria.
Tom político, discurso final e simbolismo
O encerramento privilegia cenas de reconstrução, um “abraço coletivo” de funcionários e o discurso da ministra Rosa Weber, que classifica os episódios como uma “invasão criminosa” realizada “por uma turba insana movida pelo ódio e pela irracionalidade”.
O cineasta Ian Maldonado é citado criticando a obra, ao dizer, “A qualidade audiovisual é péssima. Parece que foi editado por alguém que nunca trabalhou com montagem. Documentário, vale lembrar, é gênero cinematográfico e, como tal, precisa ter forma. ‘8 de Janeiro: Mãos da reconstrução’ não é um documentário. É ruim até como filme de propaganda”.
O resultado é uma peça com forte carga simbólica, que pretende consolidar a imagem do tribunal como guardião da democracia, mas que, segundo críticos, escolhe recortes e omissões que merecem escrutínio público.