Como a expressão ‘extrema direita’ virou rótulo amplo, qual a diferença entre extremismo e radicalismo, e quais critérios ajudam a identificar ameaças aos pilares democráticos
A palavra extrema direita é hoje usada de forma muito ampla no debate público, cobrindo desde conservadores econômicos até grupos que pregam ruptura institucional.
Especialistas internacionais distinguem posições que participam do jogo democrático de outras que rejeitam a própria democracia, uma diferença central para entender riscos reais.
Ao final da introdução, confira como pensadores como Cas Mudde, Lubomír Kopeček e analistas brasileiros interpretam o fenômeno, e por que chamar tudo de extrema direita pode empobrecer o debate, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
O alerta de George Orwell e a banalização de rótulos
O escritor britânico George Orwell já advertia sobre o uso impreciso de termos políticos, em 1946, quando observou, sobre o termo fascismo, que: “A palavra ‘fascismo’ não tem mais significado, a não ser para designar algo indesejável”.
Essa observação ajuda a entender por que hoje muitos analistas dizem que a expressão extrema direita perdeu precisão e passou a funcionar como rótulo pejorativo, quando aplicada sem critérios.
O que dizem Cas Mudde e Lubomír Kopeček sobre categorias
O cientista político holandês Cas Mudde, autor de obras como A Extrema Direita Hoje e Populismo: Uma Brevíssima Introdução, propõe separar a chamada ultradireita em duas categorias, com base na atitude frente à democracia.
Para Mudde, a extrema direita rejeita a democracia em si, não aceita alternância no poder nem limites legais ao exercício do governo. Já a direita radical participa de eleições e aceita os resultados, mesmo que questione direitos de minorias e o pluralismo.
O professor tcheco Lubomír Kopeček concorda que confundir extremismo com radicalismo é erro, e oferece critérios práticos para identificar tendências radicais, um tipo de “bingo” conceitual útil para análise.
Entre os sinais citados por Kopeček estão: forte apelo nacionalista, rejeição a imigrantes, ênfase em segurança pública com punições duras e defesa de programas sociais apenas para cidadãos do próprio país.
O debate no Brasil, entre alarmismo e cautela analítica
No Brasil, parte significativa dos estudos sobre a extrema direita vem de pesquisadores ligados à esquerda, que investigam narrativas, símbolos e redes sociais e frequentemente alertam para riscos ao regime democrático.
O historiador João Cezar de Castro Rocha, da UERJ, é citado por suas avaliações contundentes, com frases como, “Nós enfrentamos hoje a maior ameaça civilizacional desde o avanço do nazifascismo”, “A extrema direita só torna o seu triunfo permanente se o judiciário for sujeitado” e “Conhecimento crítico é a criptonita da extrema direita”.
Por outro lado, o cientista político Fernando Schüler, do Insper, observa que no Brasil os termos “extrema direita” e “extrema esquerda” “têm um significado basicamente associado à narrativa política, sem um valor acadêmico tão relevante”, apontando para o uso estratégico do rótulo em guerras culturais.
O professor Mário Sergio Lepre, da PUCPR, vai além e afirma: “Aqui eu não visualizo uma extrema direita. Não visualizo grupos que defendam uma segmentação, um nacionalismo étnico. Nada parecido com uma extrema direita, analiticamente falando”.
Como identificar uma verdadeira ameaça aos pilares democráticos
Reunindo as perspectivas, há critérios que ajudam a diferenciar conservadorismo legítimo de uma postura realmente extremista: rejeição da alternância de poder, negação da legitimidade do adversário, disposição a burlar regras legais e tentativa de capturar instituições como o judiciário.
Nem toda retórica agressiva ou proposta radical configura extremismo. Mudde e Kopeček insistem que o centro da definição é a postura frente às regras do jogo democrático, e não apenas a dureza do discurso.
Em síntese, usar o termo extrema direita exige cuidado, evidências e critérios, para que o debate público não seja reduzido a rótulos imprecisos, e para que ameaças reais à democracia possam ser identificadas e enfrentadas com clareza.