Milton Maluhy afirma que vendas com comissões fora do padrão, usando o FGC como alavancagem, permitiram “modelos de negócios não sustentáveis” ligados aos CDBs do Master
O presidente do Itaú, Milton Maluhy, criticou a atuação de plataformas de investimento pela venda massiva dos CDBs do Master, e disse que comissões elevadas ajudaram a tornar o modelo do banco viável, mesmo com sinais de risco.
Segundo Maluhy, as práticas de remuneração privilegiaram interesses das plataformas em detrimento da proteção do sistema, e isso terá custo para o Fundo Garantidor de Crédito.
O caso ameaça gerar um rombo significativo no FGC e reacende o debate sobre curadoria de produtos nas plataformas abertas, e sobre limites e responsabilidades na distribuição de títulos de bancos médios, conforme informação divulgada pelo UOL.
O que disse o presidente do Itaú
Maluhy afirmou que plataformas que venderam os CDBs do Master utilizaram as garantias do Fundo Garantidor de Crédito, “como alavancagem para seu modelo de negócio”, e que, por meio de comissões fora do padrão, viabilizaram “modelos de negócios não sustentáveis”.
O presidente citou também: “Evidente que não se pode permitir que aconteça novamente da forma como aconteceu, É um evento muito material e tem aprendizados em vários aspectos que precisam ser bem digeridos por todos os agentes”.
Ele lembrou, ainda, que “Naturalmente, o que você leva ao mercado é uma situação complexa. Os bancos estão sujeitos a eventos de crédito” e criticou os incentivos: “Era um título fora de preço de mercado, concorrendo com outros depósitos de banco médio, captando recursos a taxas fora de mercado. E alguém disposto a pagar o que for de comissão”.
Números, comissões e o impacto no FGC
De acordo com a reportagem, “O Master pagou mais de R$ 1 bilhão em comissões às plataformas XP, BTG e seus assessores de investimento”.
O episódio deve gerar um rombo de R$ 55 bilhões no patrimônio do Fundo Garantidor de Crédito com o ressarcimento a investidores que tinham até R$ 250 mil em CDBs do conglomerado Master.
No mesmo dia das declarações, o Itaú divulgou resultados e registrou lucro de R$ 12,3 bilhões no 4º trimestre, e, no ano de 2025, o lucro do banco cresceu 13,1%, somando R$ 46,83 bilhões.
Responsabilidade das plataformas e recomendações
Maluhy defendeu que as plataformas precisam ter “mais responsabilidade” na curadoria dos produtos que oferecem aos clientes, para evitar repetição do caso.
Segundo ele, “A responsabilidade [na distribuição de produtos nas plataformas abertas] é de todos nós. A gente olha não só as características do banco emissor, a gente olha aspectos de prevenção à lavagem de dinheiro. A gente olha aspectos técnicos e define limites para o risco”.
O executivo questionou ainda limites de exposição: “Qual é o risco daquele emissor, quanto eu posso distribuir, quanto do passivo daquele emissor eu quero ter para evitar um risco de concentração do passivo, para que isso não gere uma corrida bancária no futuro por conta de uma só plataforma?”
Recomposição do FGC e posição do mercado
Sobre a recomposição do FGC, Maluhy afirmou que associações, bancos e o Banco Central estão “mergulhados” na discussão para “atenuar ao máximo o custo” e que “Um evento dessa magnitude gera impacto para a sociedade”.
Ele lembrou que “O FGC nasceu no meio da década de 90 para proteger investidores em eventos de liquidez bancária. Nunca teve outro objetivo. Mas eles foram desvirtuados nos últimos anos. Os interesses próprios vieram à frente do interesse do sistema e a gente vê resultados importantes de quanto foi gerado de valor para essas plataformas.”
O presidente do Itaú também ressaltou que a plataforma aberta do banco, que administra R$ 400 bilhões de produtos de terceiros, “nunca distribuiu CDBs do Master nem COE de Ambipar”.
As declarações reacendem o debate sobre regulação de distribuição, critérios de curadoria e possíveis mudanças para limitar riscos sistêmicos causados por práticas de remuneração, e a repercussão deve orientar discussões entre reguladores e o mercado nos próximos meses.