Enamed 2025 mostra falhas práticas e expansão descontrolada de cursos, com 12.870 futuros médicos abaixo da nota mínima e pressão por fiscalização, estágios e Profimed
O resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, o Enamed 2025, acendeu um alerta sobre a qualidade da formação médica no país, com impacto direto na segurança dos pacientes.
Dos 39 mil concluintes avaliados, 33%, o que representa aproximadamente 12.870 médicos em formação, não atingiram a nota mínima de proficiência (6,0), um sinal de fragilidade que se estende desde a infraestrutura até a supervisão clínica.
Esses dados e análises foram divulgados pela Gazeta do Povo, conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo.
O que dizem os números do Enamed 2025
O resultado do exame, classificado como de nível fácil a moderado, revelou que um terço dos egressos não possui o domínio técnico básico exigido para o exercício seguro da medicina, mesmo com o nível de dificuldade da prova avaliado como baixo a moderado.
Além da taxa geral de insuficiência, os dados apontam diferenças fortes entre instituições, o que aponta para problemas estruturais e de supervisão nos estágios e na prática clínica dos cursos.
Diagnóstico das causas, estágios e a Resolução CFM 2.434/2025
Especialistas relacionam o desempenho insatisfatório à falta de campos de estágio adequados, e à expansão acelerada de cursos, sem controle rigoroso. A parte prática do curso, que corresponde a 60% da grade curricular, tem sido prejudicada pela insuficiência de hospitais e leitos para ensino.
Em resposta, o Conselho Federal de Medicina editou a Resolução CFM 2.434/2025, que atribui ao coordenador do curso a responsabilidade técnica pelo campo de estágio e reforça que a supervisão de internato e o ensino de disciplinas especificamente médicas devem ser exercidos por médicos. Autoridades do CFM defendem que o cumprimento integral dessa norma contribuiria para garantir um estágio bem-feito e maior segurança para a população.
Disparidades entre redes e regiões
O desempenho se distribuir de forma desigual entre os tipos de instituições. Conforme os dados, os cursos públicos apresentaram desempenho melhor e de forma mais consistente, com 86,5% atingindo conceitos 4 ou 5. Já entre as instituições privadas, 42% ficaram nos níveis mais baixos, e as instituições municipais com cobrança de mensalidade tiveram o pior desempenho proporcional, com 68,4% em situação crítica.
Regionalmente, o Norte lidera os índices de insuficiência, seguido pelo Centro-Oeste, enquanto o Sul registra os melhores resultados. O crescimento rápido do número de escolas agrava a situação, o país já possui mais de 440 escolas médicas, sendo que mais de 90 cursos recém-abertos ainda não foram avaliados.
Profimed, políticas públicas e a urgência de regulação
Entre 2019 e 2023, o número de médicos formados em cursos insatisfatórios mais que dobrou, um reflexo da expansão sem controle e da demora nas ações regulatórias. O Senado aprovou, em 2024, o projeto de lei que cria o Profimed, proposta que visa estabelecer um exame nacional de proficiência, mas que encontrou resistência do Ministério da Saúde.
Sob forte pressão do CFM, o Enamed foi criado em 2025, em um movimento que tentou esvaziar a tramitação do Profimed, sem garantir, contudo, um modelo efetivo de controle da formação médica. Diante dos resultados, o Profimed reaparece como alternativa para assegurar conhecimentos mínimos dos médicos ao final do curso.
O conselheiro Alcindo Cerci Neto, autor de parte das normas do CFM, declarou que “Não é aceitável ter diplomas de medicina a qualquer custo”, ressaltando a necessidade de responsabilidade institucional e fiscalização eficaz.
Especialistas e entidades concordam que ações emergenciais são necessárias, incluindo a avaliação imediata de novos cursos, a adoção de critérios rígidos para autorização de vagas, a garantia de campos de estágio adequados e a suspensão de cursos que não ofereçam condições mínimas de ensino clínico.
Enquanto não houver respostas coordenadas e rápidas do poder público e das instituições reguladoras, o risco à segurança dos pacientes persistirá, e o desafio em reconstruir a confiança na formação médica continuará sendo uma prioridade para a saúde pública brasileira.