Como a perseguição religiosa se espalha por África, Oriente Médio e América Latina, com intensidade na Nigéria, e por que comunidades são alvo de limpeza territorial
Perseguição religiosa cresce em várias regiões, combinando fanatismo, violência armada e interesses econômicos, com impacto direto em comunidades cristãs e outras minorias.
O padrão costuma unir coação, eliminação de lideranças e expulsão de populações, abrindo caminho para o controle territorial e a exploração de recursos.
As informações a seguir foram compiladas a partir de reportagem da Aceprensa, com base no Relatório sobre Liberdade Religiosa no Mundo da Ajuda à Igreja que Sofre, e em dados de organizações que monitoram a liberdade religiosa, conforme informação divulgada pela Aceprensa, com base no relatório da Ajuda à Igreja que Sofre.
Nigéria, o epicentro da violência contra cristãos
A Nigéria aparece como o país onde os cristãos mais sofrem, em um quadro marcado por ataques de grupos jihadistas e milícias armadas. De acordo com dados da Lista Mundial da Perseguição 2026, “4.849 cristãos foram mortos por causa da fé no último período analisado”, e desses, “3.490 casos ocorreram na Nigéria”.
O avanço da violência é especialmente grave na chamada Cinturão Médio, onde há um processo de pressão para impor a lei islâmica em regiões historicamente cristãs, e grupos armados, incluindo milícias de pastores fulani, Boko Haram e o ISWAP, têm papel central na onda de ataques.
O relatório destaca que “64,7% da população mundial, cerca de 5,4 bilhões de pessoas, vivem em países onde esse direito fundamental é violado”, e que “Quase 400 milhões de pessoas em todo o mundo enfrentam níveis altos ou extremos de discriminação, violência e opressão por causa de sua fé em Cristo”, conforme afirma José Fernández Crespo, do departamento jurídico da Ajuda à Igreja que Sofre, na apresentação do documento.
Religião sob ataque por fortalecer comunidade e resistência
Especialistas apontam que a perseguição religiosa muitas vezes é estratégica, porque religiões organizadas oferecem coesão social, educação e redes de apoio, que limitam o controle de grupos armados ou regimes autoritários.
Como resumiu Marcela Szymanski, integrante da comissão de redação do relatório, “Para controlar um território, é preciso desmantelar a comunidade que o habita”. Em vários países, a primeira fase é a cooptação ou neutralização de líderes, seguida pela perseguição judicial, ameaças ou assassinatos.
Em Burkina Faso, por exemplo, dezenas de padres, catequistas e líderes foram assassinados ou obrigados a fugir, o que deixou comunidades sem escolas e serviços que antes eram sustentados por paróquias. O caso de Mathieu Sawadogo, premiado por sua defesa da liberdade religiosa, ilustra o custo humano dessa resistência pessoal e comunitária.
Fora da África, a perseguição pode ter forma institucional, como em Nicarágua, Cuba e Venezuela, ou ser ligada ao crime organizado, como ocorre no México, onde padres são atacados por oferecerem alternativas sociais que enfraquecem o recrutamento criminoso.
Recursos naturais, deslocamento e a lógica da “limpeza territorial”
Outra dimensão é econômica, relacionada ao mapa dos recursos. Em várias regiões atacadas, terras férteis ou jazidas de minerais e gás coincidem com comunidades expulsas.
Na Nigéria central, ataques atingem aldeias em corredores agrícolas, deixando terras disponíveis para ocupação. Em Mali, Burkina Faso e na República Democrática do Congo, deslocamentos ocorrem em áreas ricas em ouro, fosfatos, cobalto e coltan.
Segundo o relatório, há uma dinâmica perversa em que a violência abre caminho para o controle econômico, e grupos armados atuam para, nas palavras de analistas, promover uma forma de “limpeza territorial” que facilita a exploração de recursos.
Dados do Observatório da Liberdade Religiosa na África, referentes a 2019 a 2023, mostram que entre os civis mortos, “16.769 eram cristãos, contra 6.235 muçulmanos”, e que, proporcionalmente, “a probabilidade de um cristão ser assassinado no continente foi 6,5 vezes maior do que a de um muçulmano”.
Uma surdez seletiva e o papel da comunidade internacional
Analistas criticam a resposta internacional, que muitas vezes privilegia a estabilidade econômica e o fornecimento de matérias‑primas em detrimento da proteção de comunidades. Marcela Szymanski observa que há uma “surdez seletiva”, quando políticas e regulamentações não alcançam os pontos em que opera o terrorismo que mata pessoas.
Para organizações que acompanham a liberdade religiosa, não bastam declarações. É necessária pressão política sustentada, mecanismos de responsabilização efetiva e políticas de proteção que impeçam a destruição das redes sociais que mantêm comunidades inteiras.
Enquanto isso, relatos de sequestros, assassinatos de líderes e expulsões continuam, e muitas famílias decidem permanecer fiéis mesmo sob risco. Manter o olhar atento sobre esses casos, e cobrar respostas concretas das autoridades e da comunidade internacional, é, segundo defensores dos direitos religiosos, o mínimo exigível.