Documentos revelam que fundo ligado a Daniel Vorcaro investiu R$35 milhões no Tayayá, com aportes em 2021 e 2024, e que Toffoli admite dividendos, nega pagamentos
Extratos obtidos pelo jornal O Estado de S.Paulo mostram que o fundo usado por Daniel Vorcaro para comprar participação no resort Tayayá fez aportes que somam R$35 milhões, conforme os documentos examinados pela reportagem.
As datas e os valores dos aportes coincidem com a formação da sociedade entre o fundo e a empresa Maridt S.A., da qual o ministro do STF Dias Toffoli é sócio, segundo as mesmas fontes.
As novas informações também confirmam mensagens levantadas pela Polícia Federal, em que Vorcaro e o cotista do fundo, o pastor Fabiano Zettel, trocam cobranças sobre os pagamentos, conforme informação divulgada pelo jornal O Estado de S.Paulo.
Como foram os aportes e a estrutura societária
Segundo os extratos, o FIP Arleen, veículo que passou a controlar parte do Tayayá, adquiriu, em 27 de setembro de 2021, metade da participação de R$6,6 milhões no capital social da Maridt S.A., o que representa R$3,3 milhões de capital social comprado pelo fundo.
Os registros apontam que o fundo vinculado a Vorcaro investiu muito mais que esse valor de capital social, porque, ao se tornar sócio da gestora e da incorporadora, o FIP Arleen adquiriu uma fatia do empreendimento avaliado em mais de R$200 milhões.
Os extratos detalham aportes feitos pelo cotista único do fundo Leal, o pastor Fabiano Zettel, que transferiu, nos dias 28 de outubro e 3 de novembro de 2021, respectivamente, R$15 milhões e R$5 milhões ao Leal. Nas mesmas datas, o Leal aplicou R$14.810.038,35 e R$4.936.679,35 no FIP Arleen.
Mensagens e cobranças entre Vorcaro e Zettel
As conversas obtidas pela Polícia Federal mostram que Vorcaro pressionava Zettel sobre aportes ao Tayayá. Em maio de 2024, Vorcaro escreveu, por WhatsApp, “Você não resolveu o aporte do fundo Tayayá? Estou em situação ruim“, segundo os registros.
Zettel respondeu propondo uma lista de pagamentos, entre eles uma linha identificada como “Tayaya – 15”, interpretada pela PF como um repasse de R$15 milhões. Vorcaro, na troca de mensagens, determinou: “Paga tudo hoje“.
Em agosto de 2024, diante de novas cobranças, Vorcaro perguntou, “Cara, me deu um puta problema. Onde tá a grana?“. Zettel explicou que o dinheiro estava no fundo dono do Tayayá e que iria transferir cotas, segundo as mensagens.
Os extratos também indicam que Zettel fez um aporte de R$15 milhões em 8 de julho de 2024 no fundo Leal, e que o Leal só repassou um aporte ao Arleen no dia 10 de fevereiro de 2025, no valor de R$14.521.851,17, conforme os documentos ao qual o jornal teve acesso.
Posição de Toffoli e desdobramentos no STF
Em nota divulgada após a apresentação de relatório da PF ao STF, o ministro Dias Toffoli afirmou que recebeu dividendos da empresa Maridt, que tinha participação no resort, mas negou ter recebido pagamentos de Vorcaro.
A nota citou que “a Maridt é uma empresa familiar, constituída na forma de sociedade anônima de capital fechado, prevista na Lei 6.404/76”, e que as declarações à Receita Federal têm sido aprovadas, segundo o comunicado divulgado pela defesa do ministro.
Após a divulgação das conversas e dos extratos, Toffoli deixou a relatoria do inquérito conhecido como Master no STF, e o caso foi redistribuído para o ministro André Mendonça, conforme as informações públicas sobre o processo.
Em 21 de fevereiro de 2025, segundo os documentos, a Maridt S.A. vendeu o restante de sua participação na incorporadora e na administradora do Tayayá à PHB Holding, empresa do advogado Paulo Humberto Barbosa, que já prestou serviços para a JBS.
Nem o ministro, nem a defesa de Vorcaro, se manifestaram além das notas já divulgadas, e os advogados de Fabiano Zettel informaram que não iriam comentar a nova reportagem, conforme registro da publicação consultada.