Júlio Wiziack acompanha caso em que Roberto Campos Marinho Filho cobra recomposição de R$ 462,2 milhões do Digimais, por papéis do Master, Reag e Fictor supostamente sem lastro
Um sócio do banco Digimais está exigindo a recomposição de quase meio bilhão de reais, em meio a uma disputa que expõe fragilidades relacionadas ao colapso do Banco Master, à liquidação da Reag e à crise da holding Fictor.
O pedido de recomposição foi formalizado pela gestora Yards Capital, cujo sócio minoritário no fundo EXP 1 é Roberto Campos Marinho Filho, que afirma que a carteira aportada pelo Digimais não teria lastro e pede a recompra de R$ 462,2 milhões em ativos.
As informações sobre a cobrança e o conflito societário foram reunidas a partir do material fornecido pela fonte, conforme informação divulgada pelo UOL.
O que está sendo cobrado e por quê
A Yards notificou o Digimais a recomprar uma carteira avaliada em R$ 462,2 milhões, alegando ausência de documentação e irregularidades nos créditos que lastrearam a participação do banco no FIDC EXP 1.
Segundo a notificação citada pela Yards, foram identificados 22.185 CCBs, “no valor de R$ 316,6 milhões”, sem lastro, e deste total, “13.489 eram da Fictor”. A Yards sustenta que o contrato prevê gatilho para recomposição nesses casos e que não cabe trocar um papel ruim por outro de qualidade.
Posição e defesa do Digimais
O Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, afirma que não há coobrigação e que a responsabilidade por problemas nos créditos é de quem os originou, como Master, Reag ou Fictor. O banco também diz ter repassado mais de R$ 88 milhões ao fundo desde o início da operação.
O diretor jurídico do Digimais afirmou que os repasses foram comprovados, em nota citada na matéria, com a frase, “Nas ações judiciais que temos em andamento, os repasses foram devidamente comprovados com planilhas e documentos de transferências bancárias efetuadas nas contas do EXP 1”. O banco acrescentou que, “Ao Digimais não foi proporcionado conhecimento da destinação de tais recursos.”
Acusações de apropriação indébita e falhas na originação
Na notificação, a Yards afirma que uma auditoria identificou vícios graves na carteira cedida, e em trecho citado, diz que, “O Digimais foi formalmente informado da existência de vícios estruturais graves na carteira de créditos consignados cedida, incluindo a ausência ou insuficiência de documentação comprobatória de parcela relevante das Cédulas de Crédito Bancário, inconsistências de originação, má formalização e falhas que comprometem a própria exequibilidade jurídica dos ativos”.
A gestora também acusa o Digimais de ter, segundo a sua versão, “intervir indevidamente na cadeia de pagamento dos créditos cedidos, comunicando cedentes originários e demais convênios, para que os repasses deixassem de ser direcionados ao EXP 1 e fossem realizados em favor da própria instituição”, prática que a Yards classifica como passível de enquadramento por apropriação indébita.
Impacto no fundo EXP 1, cronograma e próximos passos
O FIDC EXP 1 iniciou operação em fevereiro de 2025 com cerca de R$ 720 milhões, e, segundo o Digimais, os direitos totalizaram R$ 722,8 milhões, depois ajustados para R$ 659,7 milhões. A operação do fundo depende da conversão do patrimônio em dinheiro por meio da amortização das cotas, procedimento previsto para 28 de fevereiro.
Com decisões judiciais e bloqueios decorrentes das crises do Master, da Reag e da Fictor, há incerteza sobre se o EXP 1 terá condição financeira de efetuar a amortização, e a disputa judicial entre sócios pode atrasar ou inviabilizar a conversão dos ativos em recursos para cotistas.
O Digimais, que busca melhorar seu balanço e colocou o banco à venda, contratou Aldemir Bendine para presidir a instituição, em meio ao litígio com a Yards, enquanto esta ameaça medidas judiciais caso a recomposição não seja feita.
Riscos e desdobramentos jurídicos
Se a recomposição não ocorrer, a Yards diz que vai movimentar ações já em curso e aprofundar a contestação judicial sobre a existência e a exequibilidade dos créditos. Do outro lado, o Digimais alega ter comprovado repasses e questiona a gestão e a precificação dos ativos pelo fundo.
O embate envolve verificações de documentação, responsabilidade pela origem dos créditos, controle de fluxos de pagamento e possíveis apurações sobre retenção indevida de valores. O desfecho dependerá de perícias, decisões judiciais sobre a titularidade dos valores e do andamento das ações que já tramitam no Judiciário.
Consultado pela reportagem, Roberto Campos Marinho Filho não quis se manifestar além do que consta nos autos, segundo a fonte citada.