Entenda por que o país não cai por mudança de humor, mas quando o governo perde a capacidade de organizar o Congresso, produzir maiorias e manter o Estado funcionando
O debate público costuma apontar corrupção, traição ou ideologia como causas de crises presidenciais, porém a explicação profunda é institucional. Quando o governo deixa de conseguir organizar o Congresso e construir maiorias, o Estado entra em paralisia e a crise se agrava.
Em episódios recentes, a queda ou a perda de governabilidade não se deu por mero capricho do eleitor, mas pela incapacidade de gerir o sistema de poder ao redor do Planalto.
Essas observações constam da análise publicada no Gazeta do Povo, que discute como a falha em articular o Congresso leva à queda de presidentes, conforme informação divulgada pelo Gazeta do Povo.
O texto inclui ainda uma definição dura sobre a seleção política no Brasil, quando afirma, “O sistema político, por sua vez, seleciona para esse homem-massa. Ele é fácil de satisfazer com lisonjas e promessas de curto prazo. O homem de caráter, que oferece a verdade dolorosa em vez da mentira reconfortante, torna-se eleitoralmente inviável“, trecho assinado por João Zisman no Gazeta do Povo.
Presidencialismo informal e a lógica da coalizão
Na prática, o presidencialismo brasileiro funciona como um parlamentarismo informal, porque nenhuma agenda sobrevive sem coalizão. Sem maioria estável no Congresso, reformas emperram, o Judiciário avança e o mercado trava.
Casos históricos ilustram o padrão. Fernando Collor, eleito como símbolo de reconstrução, perdeu o controle do Congresso e caiu. Dilma Rousseff, considerada sucessora natural em um ciclo sólido, também foi afastada quando não conseguiu sustentar uma base parlamentar estável.
O papel do Centrão e a acomodação do poder
O chamado Centrão é a face mais visível dessa necessidade de maioria, ele existe porque o sistema exige apoio parlamentar. Em outros países parlamentaristas, maiorias se formam por pactos programáticos, já no Brasil, muitas vezes, por arranjos de sobrevivência.
Quando essa lógica foge ao controle, surgem excessos. O Mensalão é um exemplo de quando governabilidade virou promiscuidade, e a negociação passou a ser sinônimo de clientelismo.
Experiências recentes e o ajuste de rumos
Jair Bolsonaro tentou governar sem negociar com o Congresso, apostando na pressão pública e na relação direta com sua base. Mesmo assim, acabou entregando poder ao Centrão para sobreviver politicamente.
Já Lula, em seu terceiro mandato, governa por um arranjo de contenção entre Congresso, Judiciário, mercado e governadores, o que mantém o país funcional, porém sob tensão permanente.
O desafio para 2026 e a lição institucional
As lições de Collor, Dilma, Bolsonaro e do atual governo mostram que estabilidade não nasce de discursos, mas de engenharia política. O próximo pleito não será decidido por quem gritar mais, e sim por quem convencer que sabe fazer o Estado funcionar.
Construir maiorias previsíveis, reduzir a incerteza institucional e transformar acomodações tácitas em projeto explícito de governo são medidas cruciais para evitar que o Brasil continue derrubando presidentes por falhas de governabilidade.
Por isso, a pergunta central para eleitores e lideranças em 2026 será se o candidato consegue, de fato, articular o Congresso e devolver ao país um Estado que funcione.