sucesso de Portugal no futebol contrasta com carga fiscal elevada, IVA de 23% em bilhetes, IRS até 48% e cerca de 30% dos graduados vivendo no exterior
Portugal produz talentos de nível mundial no futebol, mas não consegue retê-los internamente, criando um paradoxo entre desempenho esportivo e saúde econômica.
Jogadores formados em clubes portugueses fazem carreira no exterior, e o país perde receita, visibilidade e investimento em suas ligas.
O problema tem raízes fiscais e estruturais que afetam clubes e profissionais de alta qualificação, conforme informação divulgada pela FEE.
Por que os craques saem
A maioria dos atletas de elite portugueses atua fora de Portugal, mesmo que o país forme nomes como Cristiano Ronaldo e técnicos como José Mourinho.
Há incentivos claros para migração, incluindo regimes fiscais mais atrativos em outros países, melhores contratos e mercados maiores, fatores que tornam mais difícil a permanência em clubes nacionais.
Tributação, receitas dos clubes e efeitos diretos
Pedro Proença, presidente da Liga Portuguesa e da Federação Portuguesa de Futebol, tem afirmado que o sistema fiscal limita a competitividade dos clubes.
Segundo a FEE, Portugal ocupa a quarta posição entre os países da União Europeia em termos de esforço fiscal, e indivíduos de maior rendimento enfrentam taxas marginais de imposto sobre o rendimento que chegam aos 48%, com sobretaxas adicionais aplicadas aos rendimentos acima de 80.000 euros.
Os clubes, por sua vez, suportam um IVA de 23% sobre a venda de bilhetes, o que reduz receitas líquidas, além de estarem sujeitos ao regime geral do imposto sobre as sociedades, de 19% em 2026, segundo a FEE.
Proença defendeu a necessidade de um “choque fiscal” para aliviar esses encargos e permitir que os clubes portugueses concorram em condições mais equitativas com as ligas estrangeiras, conforme informação divulgada pela FEE.
Comparação com outras políticas europeias
Países como Itália e Espanha adotaram regimes fiscais que atraem profissionais de alto rendimento.
A Itália implementou o regime de impatriati, que permite reduzir substancialmente a renda tributável de novos residentes, enquanto a Espanha teve a chamada “Lei Beckham”, com alíquota fixa reduzida para trabalhadores estrangeiros qualificados.
O exemplo de Cristiano Ronaldo ilustra as diferenças, ele deixou o mercado espanhol e, posteriormente, beneficiou de condições fiscais mais favoráveis na Itália, após resolver um processo tributário por acordo em 2019, conforme informação divulgada pela FEE.
O reflexo para a economia além do futebol
O futebol torna visível um fenómeno mais amplo: engenheiros, médicos e investigadores também migram para mercados com condições econômicas e fiscais mais competitivas.
Segundo a FEE, atualmente cerca de 30% dos cidadãos portugueses com ensino superior vivem fora do país, uma das taxas mais elevadas entre economias desenvolvidas.
Programas como o regime de Residente Não Habitual e o incentivo fiscal IRS Jovem tiveram impacto limitado e não alteraram os incentivos estruturais que moldam a mobilidade profissional, segundo a FEE.
Enquanto os desincentivos fiscais persistirem, Portugal continuará a ser exportador de talento, investindo na formação de profissionais que acabam por realizar seu potencial em outros países.