Como fachadas, janelas e arranha-céus do centro de Curitiba contam a história da verticalização e da modernização, com marcos como Brasilino Moura e Santa Rosa
O centro de Curitiba reúne, em uma curta caminhada, exemplos que mostram a evolução da arquitetura urbana, do neogótico ao brutalismo, passando pelo art déco e pelo modernismo.
Torres da Catedral Basílica de 1893 convivem com arranha-céus de 1927 e com prédios dos anos 1940, formando um mosaico que narra mudanças sociais, tecnológicas e estéticas.
Na Praça Tiradentes, edifícios como o Brasilino Moura e o Santa Rosa se tornaram pontos de referência da verticalização que se intensificou a partir da década de 1940, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
Um centro em diálogo entre estilos e eras
Na mesma praça, a Catedral Basílica de Curitiba, de 1893, ergue-se perto do Edifício Garcez, modernista de 1927, e do Palácio Avenida, art déco de 1929. Em poucos metros, a paisagem constrói um diálogo entre séculos e propostas estéticas distintas.
O historiador Marcelo Sutil resume essa leitura, afirmando, “Você pode ver a passagem do tempo pelos edifícios. A riqueza dos grandes centros urbanos está justamente nisso, a arquitetura dá o período de cada fase da história da cidade”, ele é diretor de Patrimônio Histórico da Fundação Cultural de Curitiba.
A década de 1940 e a virada na paisagem urbana
A verticalização de Curitiba teve início na década de 1940, quando a cidade passou por um processo de modernização influenciado por correntes internacionais.
O arquiteto e urbanista Fábio Domingos Batista diz, “Em Curitiba, a década de 1940 marcou uma virada decisiva na formação da paisagem urbana. A cidade iniciou um processo de modernização. A arquitetura passou a incorporar referências europeias. Foi uma fase mais cosmopolita. As edificações dialogavam diretamente com correntes arquitetônicas internacionais”.
Entre os marcos desse momento estão os Edifícios Brasilino Moura e Santa Rosa, que combinam altura inédita para a época com soluções que aproximavam a cidade das tendências metropolitanas, como a busca por fachadas mais limpas e pela funcionalidade.
Brasilino Moura, a esquina moderna que ‘balança, mas não cai’
Inaugurado em 1944 pela Construtora Gutierrez, Paula & Munhoz, o Edifício Brasilino Moura fica na esquina das ruas Cândido Lopes e Ébano Pereira e se tornou marco residencial do centro.
O prédio ficou conhecido popularmente pelo apelido “balança, mas não cai”, referência à inclinação das janelas, e chama atenção por ter sido um dos primeiros a usar esquadrias de ferro e vitral, sinais de inovação para a época.
Marcelo Sutil observa que, “Era uma época em que a arquitetura ainda podia brincar com a inclinação das janelas. Isso deu origem até ao apelido popular de ‘balança, mas não cai'” e que o edifício segue como ponto de referência no centro antigo da cidade.
Edifício Santa Rosa, o ‘termômetro’ que marcou a verticalização
Idealizado pelo engenheiro Rivadávia Fonseca de Macedo, o Edifício Santa Rosa foi inaugurado em dezembro de 1940 e, com oito pavimentos, figurou entre os prédios mais altos de Curitiba naquele momento.
O Santa Rosa chamou atenção pelo conforto interno, com sistema de água aquecida, banheiras em louça, espaço para telefone e elevador, e por adotar revestimento em pó de pedra, associado ao espírito modernista da época.
Um dos elementos mais marcantes é o conjunto de janelas cilíndricas, que virou símbolo do prédio e da verticalização, batizado popularmente como o “termômetro”. Segundo relato citado por Fábio Domingos Batista, “De acordo com relatos de sua família, o engenheiro teria criado a janela tubular de vidro inspirado em um termômetro de mercúrio”, conta ele.
Preservação e identidade urbana
Os edifícios em Curitiba funcionam como memória material, mostrando como a cidade reinterpretou a modernidade ao longo do tempo, em diálogo com funções residenciais, comerciais e cívicas.
Especialistas apontam que conservar essas construções é preservar pontos de referência e a leitura histórica do tecido urbano, ao mesmo tempo em que se estuda como integrar novas demandas de uso e acesso.
Do neogótico ao brutalismo, as fachadas e suas janelas continuam a contar a história de uma cidade em transformação, com marcos como o Brasilino Moura e o Santa Rosa lembrando a etapa em que Curitiba se consolidou como uma capital em processo de verticalização e modernização.