O horror que se disfarça de amizade: A nova face do fim do mundo em “Pluribus”
O gênero zumbi, por décadas, nos habituou a um imaginário de podridão, fome e luta pela sobrevivência. Figuras como as criadas por George A. Romero e popularizadas por “The Walking Dead” exploravam a barbárie humana emergindo diante da escassez e do colapso social. A carne apodrecida servia como metáfora potente para a fome insaciável e a ambição desmedida.
No entanto, a série “Pluribus”, criada por Vince Gilligan, autor de “Breaking Bad”, propõe uma reviravolta chocante. Em vez da agressão e da decomposição, o apocalipse surge disfarçado de gentileza, com uma ameaça que não ataca fisicamente, mas busca fundir a humanidade em uma mente coletiva, onde o individualismo é aniquilado em nome de uma paz forçada.
Essa nova abordagem levanta questões profundas sobre o que realmente tememos: a morte do corpo ou a morte da alma, a violência explícita ou a complacência induzida. A trama de “Pluribus” nos força a confrontar um tipo de horror mais sutil, porém igualmente devastador, apresentado em uma narrativa que, conforme informações divulgadas, explora a banalidade do heroísmo em tempos de incerteza.
A subversão do ícone zumbi: De devoradores a serviçais sorridentes
A tradição do zumbi sempre esteve ligada à ideia de uma criatura guiada por impulsos básicos, incapaz de qualquer raciocínio ou pacto social. A estética da decomposição e a violência mórbida eram os pilares desse horror. Gilligan, contudo, rompe com essa fórmula. Em “Pluribus”, os infectados não buscam devorar, mas sim servir, com sorrisos genuínos e uma oferta constante de ajuda.
Essa inversão cria um cenário onde a ameaça não bate à porta com violência, mas a acaricia, oferecendo auxílio para tarefas cotidianas. O horror reside na perda da consciência individual, na substituição do conflito e da angústia pela felicidade perpétua e um consenso absoluto. É a tranquilidade que aniquila a alma, um pacto fáustico secularizado onde a individualidade é trocada por uma paz superficial.
O medo da felicidade forçada: Quando a gentileza se torna autoritária
O professor e mestre em Filosofia, Francisco Razzo, autor de diversas obras sobre a imaginação totalitária, aponta que a série de Gilligan apresenta o autoritarismo perfeito. Em vez de repressão ostensiva, o controle é exercido através da dopamina e do consenso. A “paz” oferecida é, na verdade, a morte da individualidade, um conforto que suprime a capacidade de questionamento e a autonomia.
Essa proposta de um mundo sem conflitos, angústias ou solidão, embora sedutora à primeira vista, esconde um perigo imenso. A série explora o pavor pela morte da alma, em contraste com o temor pela morte do corpo ensinado por Romero. A felicidade coletiva torna-se mais assustadora do que a miséria visível, pois destrói o que há de mais essencial no ser humano: sua capacidade de pensar e sentir individualmente.
Zoé vs. Bíos: A vida nua em detrimento da existência política
Os gregos antigos faziam uma distinção fundamental entre “zoé” e “bíos”. “Zoé” refere-se à vida puramente biológica, ao mero metabolismo, comum a todos os seres vivos. “Bíos”, por outro lado, designa a existência humana qualificada, aquela voltada para a ação, o discurso e a participação na vida da pólis, a cidade-estado.
Em “Pluribus”, o vírus da felicidade opera o triunfo da “zoé” sobre a “bíos politikón”. A vida se resume a um funcionamento eficiente, a uma gestão sanitária dos corpos, desprovida de biografia, conflito e voz. A individualidade é suprimida, e o ser humano se torna um organismo adaptado a um cenário de apocalipse da gentileza, onde a verdadeira ameaça é a perda da própria essência humana.