Enfermeira denuncia importunação sexual e revela onda de relatos de outras mulheres em Salvador
Uma enfermeira que denunciou ter sido vítima de importunação sexual por um personal trainer em Salvador revelou que, após sua exposição, mais de 40 mulheres entraram em contato relatando experiências parecidas.
Maria Emília Barbosa, a vítima, disse ter ficado chocada com a quantidade de relatos que chegaram após a repercussão do caso, indicando um padrão de comportamento do profissional. Ela cobra agilidade da polícia na investigação.
A enfermeira também relatou ter recebido mensagens intimidatórias da família do investigado, incluindo a mãe que pediu que ela não falasse sobre o caso publicamente, citando a profissão da irmã e a atuação do pai no judiciário. Conforme divulgado pelo g1, a defesa de Maurício Brasil, o personal trainer investigado, informou que não emitirá nota pública neste momento, pois as manifestações oficiais serão feitas exclusivamente nos autos do processo.
O relato da vítima e o modus operandi do personal trainer
Maria Emília contou que o primeiro contato com o profissional ocorreu em janeiro, após indicação de uma amiga. Durante a primeira avaliação, em 31 de janeiro, o personal trainer teria exigido que a consulta fosse feita de biquíni, alegando ser a única forma adequada. Ela relatou sentir-se desconfortável com poses e procedimentos, incluindo uma aproximação excessiva das partes íntimas.
Em uma nova avaliação, 30 dias depois, Maria Emília recusou o uso do biquíni, mas o profissional teria insistido. Segundo ela, o comportamento se tornou mais invasivo, com o personal trainer chegando a “lateralizar” sua peça íntima e realizando movimentos de conotação sexual. A enfermeira afirma que deu um tapa na mão dele e pediu para parar, momento em que ele teria pegado sua mão e a colocado em seu órgão genital, dizendo: “Veja só como eu fico com você”.
Após o incidente, Maria Emília deixou o local imediatamente e, ao conversar com pessoas próximas, descobriu que outras mulheres já haviam passado por situações semelhantes com o mesmo profissional. Ela procurou apoio jurídico e registrou um boletim de ocorrência em março.
A onda de solidariedade e o medo de outras vítimas
“Foram mais de 40 pessoas que entraram em contato comigo. Cada uma com sua subjetividade, mas com relatos muito parecidos com o meu. Relatos que mostram um mesmo modus operandi”, declarou a enfermeira ao g1. Ela destacou que muitas das mulheres que a procuraram sentem medo ou vergonha de revelar o ocorrido, inclusive para familiares e parceiros.
“Tem meninas que nem sequer tiveram coragem de contar aos noivos, aos maridos, aos namorados. Então o outro lado tem que pensar nas outras famílias antes de acontecer o que aconteceu”, comentou Maria Emília. Ela decidiu falar publicamente também em respeito às famílias de outras mulheres, para dar voz a elas.
Investigação policial e posicionamento do CREF
A Polícia Civil informou ao g1 que apura uma denúncia de importunação sexual em uma sala comercial no bairro Caminho das Árvores, nos dias 31 de janeiro e 19 de março. A 16ª Delegacia Territorial da Pituba conduz oitivas e outras diligências investigativas, incluindo análise de câmeras de segurança.
O Conselho Regional de Educação Física da 13ª Região – Bahia (CREF13/BA) informou que já instaurou procedimentos administrativos e que a Câmara de Julgamento Ético-Disciplinar analisará o caso com rigor. O CREF13/BA repudiou veementemente qualquer forma de violência ou assédio e reafirmou seu compromisso com a proteção da sociedade e o respeito à dignidade humana.
Em nota, o CREF13/BA declarou: “Ressaltamos que a conduta relatada não representa os mais de 22 mil profissionais de Educação Física registrados na Bahia, que atuam com responsabilidade, respeito e ética, contribuindo diariamente para a promoção da saúde e da qualidade de vida da população.” O órgão garantiu que, se houver comprovação de infrações éticas, as sanções cabíveis serão aplicadas, podendo incluir advertência, suspensão ou cancelamento do registro profissional.
Apelo por denúncias e apoio às vítimas
Maria Emília fez um apelo para que outras mulheres que passaram por situações semelhantes procurem as autoridades. “Todo mundo que já passou por isso e reconhece realmente quem é a pessoa, que não fique só no Instagram. Que tenha coragem e vá até a delegacia denunciar. A gente só vai ter voz se estiver juntas”, afirmou.
A enfermeira se sentiu culpada inicialmente por ter ficado paralisada, mas hoje compreende que essa é uma resposta comum diante da violência. Ela incentivou vítimas de violência física, psicológica ou digital a denunciarem e divulgou o contato de seu advogado para apoiar possíveis novas vítimas.