Com redução gradual de tarifas em até 15 anos, o acordo Mercosul-UE pode trazer produtos europeus de consumo, porém a alta cotação do euro e o posicionamento de marcas limitarão o acesso das classes médias
O acordo Mercosul-UE deve abrir o Brasil a produtos europeus do dia a dia, como vinhos, queijos e chocolates, mas a maior parte dos benefícios tende a alcançar as classes A e B.
As reduções das alíquotas serão graduais, com prazos que podem chegar a 15 anos para alguns setores, o que significa que a chegada de itens mais baratos acontecerá ao longo do tempo e não de imediato.
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Quem deve se beneficiar com o acordo Mercosul-UE
Especialistas ouvidos na cobertura avaliam que as classes mais altas do país serão as principais a aproveitar a maior oferta de produtos europeus. Segundo o professor Roberto Kanter, da FGV, “Se a paridade fosse de um euro para R$ 3, a redução das tarifas traria uma serie de produtos europeus superiores aos brasileiros a preço acessível”, mas a cotação atual do euro, em R$ 6,24, limita esse efeito.
Kanter afirma ainda que “Chegarão itens teoricamente supérfluos, como queijo, vinho e chocolate”, e observa que marcas premium podem entrar, porém voltadas a um público restrito. Em sua avaliação, “Se vai existir uma classe beneficiada será a A e B. Dificilmente a classe C terá acesso.Roberto Kanter, da FGV”.
Prazos, setores e números que importam
O tratado prevê redução gradual das alíquotas, e alguns produtos gastronômicos, incluindo vinhos, queijos, azeite e chocolate, podem ter imposto zerado em até 15 anos. Medicamentos como analgésicos, antitérmicos, anti-inflamatórios, antigripais e antialérgicos levarão até dez anos para zerar alíquota, que hoje varia de 8% a 14%.
Para a indústria de alimentos, a expectativa é positiva em termos de exportação. João Dornellas, presidente da Abia, afirmou, “[O tratado é a] chave para dar o salto de exportador de matéria-prima para exportador de valor agregado. A Europa é um mercado de 450 milhões de consumidores que queremos acessar com produtos processados nas nossas fábricas”.
Impacto no mercado interno, marcas e preços
Mesmo com tarifas menores, a alta do euro e custos de logística podem manter muitos produtos europeus caros no Brasil. Marcas populares na Europa, que por lá são baratas, tendem a manter preços superiores no país, enquanto produtos premium europeus podem entrar em nichos caros, como lojas especializadas e pequenos volumes.
No setor do chocolate, por exemplo, Kanter lembra que o Brasil é o maior produtor de cacau do mundo, o que dificulta a competição de marcas de massa, mas abre espaço para chocolates finos importados, vendidos em volume reduzido e com público de renda mais alta.
Reações de setores e cenário político-diplomático
O acordo foi aprovado pela União Europeia e será assinado no dia 17 de janeiro, no Paraguai, segundo a cobertura, reunindo um mercado potencial de 722 milhões de consumidores. A aprovação precisou do apoio de 15 países, que representam 65% da população total do bloco.
Do lado europeu, Olof Gill classificou o pacto como importante, “É um acordo fundamental para a União Europeia, no plano econômico, político, estratégico e diplomático”, disse Olof Gill, um dos porta-vozes da Comissão. Do setor automotivo, a Anfavea também vê perspectiva positiva, com o presidente Márcio de Lima Leite afirmando, “É um acordo positivo, temos motivo para celebrar, mas não com impacto a curto prazo”.
Há, ainda, posições de cautela no campo da saúde pública, com nota do Grupo FarmaBrasil e da Abifina defendendo que “O Sistema Único de Saúde depende de tecnologia e produção local, tendo as compras públicas como o principal instrumento que articula a nova política industrial brasileira para o Complexo Econômico-Industrial da Saúde”.
Na prática, portanto, o acordo Mercosul-UE deve ampliar a oferta de produtos europeus no Brasil, especialmente em segmentos de maior renda, enquanto o efeito sobre preços e concorrência no varejo brasileiro dependerá da evolução cambial, de decisões de posicionamento de marcas e do tempo usado para reduzir tarifas.