Assinatura encerra 25 anos de impasse, cria zona de livre comércio para 720 milhões de consumidores e obriga Brasil a escolher entre modernização ou protecionismo
O fim do impasse entre União Europeia e Mercosul aproxima o Brasil de um mercado de alto padrão regulatório e grande poder de compra, com efeitos distintos para o agronegócio e para a indústria nacional.
Para o campo, a liberalização promete acesso premium e maior previsibilidade de suprimentos, enquanto fabricantes veem risco de concorrência em segmentos sensíveis, ao mesmo tempo em que ganham insumos e tecnologia mais baratos.
Nas próximas semanas, a assinatura formal deve ocorrer no Paraguai e o texto seguirá ao Parlamento Europeu, abrindo prazos de implementação e mecanismos de adaptação setorial, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
Por que o agronegócio comemora
O acordo favorece claramente o agronegócio brasileiro, que terá amplo acesso ao mercado europeu. Cerca de 99% das exportações agrícolas do Mercosul terão algum nível de liberalização tarifária, e produtos como café solúvel, sucos de laranja, frutas frescas e óleos vegetais aparecem entre os principais beneficiados.
A redução de tarifas e a criação de cotas, como as 99 mil toneladas de carne bovina com tarifa reduzida e etanol para uso industrial com tarifa zero, ampliam margens e capacidade de investimento para quem já opera com rastreabilidade e conformidade sanitária.
Segundo o professor João Alfredo Lopes Nyegray, da PUC-PR, “A União Europeia não está buscando apenas ‘comprar mais’. Ela tenta construir previsibilidade de suprimentos e diversificação geoeconômica em ambiente internacional instável. Acordos desse tipo viram instrumentos de estratégia, não só de comércio”.
Para analistas, o ganho do agro vai além de tarifas, incluindo efeitos de reputação e aprendizado institucional que podem abrir portas em outros mercados exigentes.
Indústria entre pressões e oportunidades
A indústria brasileira encara o acordo com cautela, porque, ao mesmo tempo que abre mercados para bens industriais nacionais, expõe setores sensíveis à concorrência direta de produtos europeus de alto valor agregado, como queijos, leite em pó e vinhos.
O texto inclui salvaguardas e prazos de adaptação para segmentos como o automotivo, e prevê cooperação tecnológica que pode acelerar modernização. “É fundamental que a implementação considere períodos de adaptação e instrumentos de apoio à competitividade”, afirma Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, Fiemg.
Além disso, a entrada de insumos e bens de capital europeus com tarifas mais baixas pode reduzir custos e viabilizar investimentos em inovação, o que para muitos é condição necessária para enfrentar a concorrência externa.
Rafael Cervone, do Ciesp, destaca que “O acesso preferencial ao mercado europeu estimula a integração das empresas brasileiras às cadeias globais de valor”, e observa que o acordo pode ser “um avanço estrutural necessário para o crescimento econômico de longo prazo”.
Exigências ambientais e disputa regulatória
As cláusulas de sustentabilidade se tornaram peça central do acordo, e países europeus já utilizaram normas ambientais como instrumento de pressão comercial. A França, por exemplo, suspendeu importações de produtos agrícolas brasileiros que usam defensivos proibidos na Europa.
José Luiz Mendes, consultor da StoneX, alerta que “O acordo premia a eficiência e padrões internacionais. Capturará mais valor quem operar sob rastreabilidade e controle ambiental”. Ele acrescenta, “Empresas com rastreabilidade e controle ambiental rigoroso capturarão as melhores cotas do mercado europeu. O acordo pune o amadorismo e recompensa governança corporativa. Sustentabilidade deve ser encarada como estratégia de negócio, não apenas como custo”.
Assim, normas sanitárias e ambientais passam a ser tanto barreiras quanto incentivos para a modernização do setor produtivo brasileiro.
Impactos econômicos, geopolíticos e calendário
O pacto cria a maior zona de livre comércio do planeta, com cerca de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado de US$ 22 trilhões. Para investidores, transmite sinal de previsibilidade regulatória, o que pode atrair novos fluxos de capital.
Em 2023, a União Europeia já era o principal investidor produtivo no Brasil, com estoque de US$ 321,4 bilhões, segundo o Banco Central. Em 2025, 98,8% das importações brasileiras da UE, equivalentes a US$ 49,7 bilhões, foram bens industriais, segundo a Secretaria de Comércio Exterior, Secex.
As projeções também oferecem números concretos, como a estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, que aponta crescimento de 0,46% no PIB até 2040, equivalente a US$ 9,3 bilhões. A Confederação Nacional da Indústria, CNI, calcula que cada R$ 1 bilhão exportado para a UE gera 21,8 mil empregos no Brasil.
O cronograma é acelerado, com a expectativa de assinatura no Paraguai na próxima semana e envio do texto ao Parlamento Europeu em seguida. A implementação poderá ocorrer de forma provisória após a ratificação por pelo menos um país do Mercosul, já que as cláusulas tarifárias são competência exclusiva da UE.
Entre os riscos políticos, resistências internas na Europa, lideradas pela França e pela Polônia, e protestos de agricultores, como os que ocorreram na Espanha, podem influenciar fases finais do processo, mesmo que países como Itália, Alemanha e Espanha tenham sinalizado apoio.
O resultado final impõe ao Brasil uma escolha estratégica, entre acelerar a modernização produtiva para aproveitar o acesso preferencial da Europa, ou adotar medidas protecionistas que podem preservar setores no curto prazo, mas penalizar a competitividade no longo prazo.
Para o campo e para a indústria, a mensagem é clara, a abertura traz oportunidades importantes, e também a necessidade de adaptação rápida, governança e investimento em tecnologia e sustentabilidade.