O dólar está sob pressão, após perder poder de compra e ver bancos centrais acumularem ouro, enquanto alternativas como uma moeda BRICS ou um padrão-ouro voltam ao debate
O dólar segue como referência global, mas sinais recentes acendem dúvidas sobre por quanto tempo ele manterá esse papel.
Nos mercados, a combinação de inflação, acumulação de ouro por bancos centrais e iniciativas geopolíticas alimenta um debate sobre alternativas ao atual sistema fiduciário.
Os dados e argumentos que fundamentam essa discussão foram compilados a partir das informações recebidas, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo, com base em artigo da FEE.
Quanto o dólar já perdeu e o que isso significa
Em 6 de fevereiro de 2026, o Dow Jones atingiu um nível recorde de 50.000 pontos. Em termos nominais, é um marco, mas a comparação com ativos reais mostra outra perspectiva.
Em 1999, US$ 10.000 comprariam 40 onças, oz., de ouro. Em 2026, US$ 50.000 compram apenas 10 oz. de ouro. Cada onça equivale a 28,35 gramas.
O fato é que, em 27 anos, o dólar perdeu 75% do seu valor, e isso explica por que muitos agentes buscam proteção em ativos reais.
Por que bancos centrais estão comprando ouro
Desde Bretton Woods, o dólar permaneceu a principal moeda de reserva mundial, mas as reservas oficiais vêm mudando de composição.
O World Gold Council relata compras líquidas por bancos centrais de mais de 4.000 toneladas métricas no período de 2022–2025.
Para contextualizar, a maior parte do ouro já extraído ainda existe, estimada em 216.000 toneladas métricas. Os bancos centrais atualmente detêm pelo menos 16,5%, 36.000 toneladas métricas.
Movimentos históricos reforçam o custo de decisões equivocadas sobre reservas. Em 1997, o Banco Central da Austrália, Reserve Bank of Australia, ou RBA, vendeu dois terços de suas reservas de ouro, 167 toneladas métricas, por cerca de AUD 2,4 bilhões, menos de AUD 450 por onça.
Ao preço atual de mais de AUD 7.000 por onça, isso representa uma perda em termos reais de AUD 35 bilhões, e ilustra o risco de manter reservas primariamente em títulos ou moedas que podem se desvalorizar.
Alternativas ao dólar e argumentos a favor do ouro
Há quem defenda um retorno a algum tipo de padrão-ouro ou a uma moeda composta que reduza a dependência do dólar.
John D. Mueller escreveu que, traduzindo para o português, “O requisito essencial para restaurar um sistema monetário internacional estável é que os principais países concordem em substituir todas as reservas oficiais em moeda estrangeira por um ativo monetário independente que não seja, em última análise, uma obrigação de alguma nação em particular. Muitos padrões são possíveis em teoria, mas as autoridades monetárias ainda detêm quase 900 milhões de onças de ouro, e a solução mais simples, mais eficaz e mais testada é um padrão-ouro modernizado sem reservas em moeda estrangeira.”
Além disso, propostas práticas surgem no debate. Judy Shelton, em seu livro Good as Gold, sugere criar Treasury Trust Bonds que dariam ao detentor, no vencimento, ou um número garantido de dólares americanos ou uma quantidade garantida de ouro.
Esses títulos atuariam como um controle sobre os gastos governamentais, sinalizando por meio de seu preço de mercado a extensão da inflação criada pelo governo.
Implicações políticas, sociais e para economias como a do Brasil
Moedas fiduciárias, por dependerem da confiança nas autoridades, podem favorecer devedores em detrimento dos credores, e favorecer aqueles que possuem ativos, em detrimento de quem vive de salários e pensões.
Essa dinâmica tende a aumentar desigualdades, reduzir incentivos à poupança e limitar formação de capital, com impacto na produtividade de longo prazo.
Politicamente, governos enfrentam pressões para manter programas, cortes e subsídios que podem ser financiados por déficits, levando à inflação que corrói o poder de compra da moeda.
Para países como o Brasil, um eventual deslocamento do dólar afeta comércio, reservas e custo de financiamento. Diversificar reservas, inclusive com ouro, ou adotar instrumentos indexados a ativos reais, são caminhos que alguns bancos centrais exploram.
O que pode mudar e quais cenários observar
Três forças-chave devem ser monitoradas, e cada uma pode alterar o papel do dólar.
Primeiro, a velocidade com que bancos centrais convertem parte das reservas em ouro e outros ativos reais, alterando a liquidez demanda por títulos do Tesouro dos EUA.
Segundo, iniciativas coletivas, como propostas dos BRICS por uma moeda composta, podem reduzir transações em dólares se ganharem escala e confiança entre países parceiros.
Terceiro, a disciplina fiscal dos Estados Unidos e a percepção global sobre a capacidade e a vontade do governo americano de controlar inflação, que afetam a atratividade do dólar e de seus títulos.
Em síntese, o dólar continua dominante hoje, mas sua posição não é invulnerável. A acumulação de ouro pelos bancos centrais, propostas por alternativas e sinais de perda de poder de compra constituem um alerta para governos, investidores e cidadãos.
Seja qual for o futuro, entender esses dados e cenários ajuda a avaliar riscos, proteger patrimônio e planejar políticas públicas mais sólidas.