Com parceria comercial EUA-UE fragilizada, o Brasil pode conquistar fatia maior do mercado europeu em produtos onde já tem escala, logística e histórico exportador
O ambiente de tensão entre os Estados Unidos e a União Europeia abre uma janela de oportunidades para o Brasil ampliar as exportações para a Europa, especialmente em commodities e petróleo, desde que o país atenda requisitos técnicos e ambientais.
Especialistas ouvidos apontam que a incerteza causada por medidas tarifárias e ameaças comerciais leva compradores europeus a buscar fornecedores alternativos mais estáveis e confiáveis.
As informações desta reportagem foram organizadas conforme informação divulgada pelo UOL.
Por que a tensão entre EUA e UE favorece exportações brasileiras
A relação comercial entre Estados Unidos e União Europeia é a maior do mundo, e qualquer ameaça a essa integração afeta cadeias de suprimento globais. Somadas as exportações e importações de mercadorias e serviços entre os dois blocos, “os valores se aproximam de US$ 1 trilhão por ano”, conforme a fonte.
Na prática, “os EUA compram US$ 570 bilhões da Europa, enquanto os mercados europeus importam US$ 370 bilhões de lá, superávit de US$ 200 bilhões em favor dos europeus”, trecho disponível na fonte, e esse deslocamento pode levar a diversificação de fornecedores.
Como resumiu um especialista citado, “As ameaças de aumento de tarifas no contexto de ter mais controle sobre a Groenlândia demonstram uma fragmentação do mundo cada vez maior, Nesse contexto, novas alianças globais são buscadas, Sem que se saiba ao certo por quanto tempo vai durar esse risco constante de aumento de tarifas e de retaliações por parte de seu principal parceiro comercial, que são os Estados Unidos, a Europa tende a buscar novos fornecedores, e oportunidades surgem”, Carlos Honorato, professor da FIA Business School.
Setores com maior potencial para aumentar vendas
A lista de itens mais vendidos pelos Estados Unidos à Europa indica segmentos onde o Brasil já tem capacidade de atendimento. No campo das commodities agrícolas, “a Europa importa dos Estados Unidos grandes volumes de commodities agrícolas, como soja e derivados, além de alguns alimentos e insumos industriais. Nesse campo, o Brasil é um substituto natural, com capacidade produtiva e competitividade de custos, desde que atenda exigências ambientais e de rastreabilidade”, disse Jackson Campos, diretor de Relações Institucionais na AGL Cargo.
Em valores, “Vendas do Brasil para a União Europeia soma US$ 49,8 bilhões. As exportações brasileiras para o bloco europeu são lideradas por óleos brutos de petróleo (US$ 9,8 bilhões, ou 19,7% do total), café não torrado (US$ 7,2 bilhões, ou 14,4%), farelos de soja, outros alimentos para animais, farinhas de carne (US$ 4 bilhões, ou 8,2%), minérios de cobre (US$ 3 bilhões) e soja (US$ 2,5 bilhões, ou 5%)”, conforme a fonte.
O petróleo aparece como destaque, já que o Brasil tem infraestrutura para atender, e “o produto já é o principal item da pauta brasileira de exportações para o mundo, tendo somado mais de US$ 46 bilhões em vendas em 2025”, segundo a reportagem.
Sobre capacidade de venda, foi informado que “O Brasil já exporta 200 mil barris por dia para Europa”, e que países como Espanha, Portugal, França, Itália e Holanda são principais compradores.
Roberto Ardenghy, presidente do IBP, destacou: “Nós somos fornecedor confiável. Temos história de cumprimento de contratos, somos fornecedores de muitos anos. Além disso, produzimos um petróleo de qualidade, de baixa emissão e CO2, que as refinarias europeias gostam. Então, somos sim beneficiados por esse ambiente e temos condições de aumentar as exportações de petróleo para a Europa.”
Limitações e requisitos que o Brasil precisa cumprir
Apesar das janelas, há restrições importantes. Para produtos agrícolas e alimentos, as exigências sanitárias, ambientais e de rastreabilidade são determinantes para entrar ou ampliar presença no mercado europeu.
Como advertiu Jackson Campos, “O Brasil pode se aproveitar e ganhar mercado se agir rápido, mas só em produtos onde já tem escala, histórico exportador e capacidade de atender requisitos técnicos, sanitários e ambientais exigidos por esses mercados.”
No campo industrial, o país enfrenta barreiras tarifárias em outros mercados, e isso limita redirecionamentos. “O Brasil já está com uma tarifa nos bens industriais e máquinas e equipamentos de 50% para os Estados Unidos. Então, para nós, não teria sentido de substituir nos Estados Unidos um produto europeu por um brasileiro, porque nós também estamos supertarifados”, afirmou José Velloso, presidente-executivo da Abimaq.
Como o Brasil pode agir para aproveitar a oportunidade
Especialistas recomendam três frentes práticas, a serem implementadas de forma coordenada entre governo e setor privado. Primeiro, acelerar certificações e melhorias em rastreabilidade e conformidade ambiental, para que produtos agrícolas e alimentos cumpram exigências europeias.
Segundo, usar a base industrial instalada, incluindo subsidiárias de capitais europeus e americanos no Brasil, para triangular produção e exportar bens industrializados fora do fogo cruzado tarifário, como destacou Alexandre Pires, professor do Ibmec-SP, ao dizer que “Brasil já tem capital americano e capital europeu em setores que fornecem a esses dois mercados, então o país pode ofertar produtos a partir dessas bases que ficariam fora da guerra tarifária direta entre Estados Unidos e União Europeia.”
Terceiro, priorizar logística e acordos comerciais que reduzam tempo e custo de acesso ao mercado europeu, especialmente para petróleo, grãos e alimentos processados, áreas em que o Brasil já tem história exportadora e escala.
Analistas alertam que a oportunidade é real, mas temporária, enquanto persistirem sinais de instabilidade nas políticas comerciais americanas. A resposta rápida e coordenada entre setores privado e público será crucial para transformar incerteza geopolítica em ganhos sustentáveis nas exportações para a Europa.