Após a detenção de Nicolás Maduro, cresce a discussão sobre a suposta divisão do mundo em esferas de influência entre Estados Unidos, China e Rússia, e reinterpretações da Doutrina Monroe
A captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro por forças envolvidas em uma operação no último sábado reacendeu um debate geopolítico sobre a chamada divisão do mundo em áreas de influência entre as grandes potências.
O episódio colocou em evidência a nova estratégia de segurança dos EUA e reavivou teorias que circulam nas redes sociais sobre mapas que dividem o planeta em esferas dominadas por Washington, Moscou e Pequim.
Especialistas e vozes políticas reagiram com interpretações distintas sobre se existe um plano explícito de partilha do mundo entre essas potências, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
Reações oficiais e o argumento do hemisfério
Na esteira da operação, o secretário de Estado americano Marco Rubio afirmou, “Este é o nosso hemisfério, e o presidente [Donald] Trump não permitirá que nossa segurança seja ameaçada”, posicionamento que, segundo analistas, reflete a intenção declarada do governo de priorizar a influência dos EUA nas Américas.
A administração Trump vinculou a ação a esforços mais amplos para reduzir a presença da China e da Rússia no Hemisfério Ocidental, e a nova estratégia de segurança nacional do governo passou a ser lida como uma reinterpretação da Doutrina Monroe, do século XIX, com ênfase em “engajamento e expansão” nas Américas.
Teoria das esferas de influência, intelectuais e imprensa
Ilustrações que circulam online mostram o mundo dividido em três zonas, com os EUA dominando o Hemisfério Ocidental, a Rússia controlando o leste europeu e partes da África, e a China concentrada na Ásia. A ideia ganhou novo fôlego após a divulgação da estratégia norte-americana, e foi comentada por líderes como o presidente francês Emmanuel Macron.
Em Paris, Macron disse, “As instituições do multilateralismo funcionam com cada vez menos eficácia, Encontramo-nos em um mundo de grandes potências com uma verdadeira tentação de dividir o mundo”, avaliação que reforçou a percepção de que a ordem global caminha para uma lógica de zonas de influência.
A jornalista Anne Applebaum, em artigo para a revista The Atlantic, escreveu que “Desde então, a noção de que as relações internacionais devem promover o domínio das grandes potências, e não valores universais ou redes de aliados, se espalhou de Moscou para Washington”. Gideon Rachman, colunista do Financial Times, apontou que a combinação da nova doutrina com ações de Trump “sugere que ele se sente atraído por uma ordem mundial organizada em torno das esferas de influência das grandes potências”.
Críticas e ceticismo de analistas
Nem todos acreditam que exista um pacto explícito para dividir o planeta em três campos. O economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena afirmou à Gazeta do Povo que “há um pouco de teoria da conspiração” nas interpretações mais absolutas sobre a divisão do mundo.
Lucena destacou que, embora os EUA busquem limitar a influência de potências rivais globalmente, isso não significa que exista um plano coordenado entre as grandes potências para traçar fronteiras estáveis e trocas territoriais, como ceder a Venezuela em troca da Ucrânia, tese que ele considera exagerada.
Implicações e cenários futuros
O debate sobre a divisão do mundo expõe tensões reais entre ordenamento multilateral e interesses nacionais. Se por um lado há tentativas de ampliar áreas de influência, por outro permanecem dúvidas sobre a disposição concreta de Rússia e China em negociar zonas estratégicas em troca de ganhos noutras regiões.
Analistas concluem que, mesmo com avanços em políticas de contenção e disputa geopolítica, a ideia de um mapa estanque e acordado entre potências rivais parece, por ora, mais uma hipótese controversa do que uma realidade consolidada.