Com a prisão de Nicolás Maduro, a disputa pela influência na região muda de mapa, com China e Rússia aumentando apoio financeiro, projetos logísticos e cooperação militar, e os EUA respondendo com medidas econômicas
Com a captura do então ditador venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos no último dia 3, a China e a Rússia perderam um aliado-chave nas Américas, mas seguem ativas no continente.
Pequim tem ampliado linhas de crédito, investimentos e doações, enquanto Moscou mantém acordos militares e cooperação com regimes alinhados, sobretudo em Cuba e Nicarágua.
As informações a seguir consolidam anúncios oficiais e análises, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
Expansão econômica e projetos estratégicos da China
A atuação chinesa nas Américas se concentra em comércio, crédito e obras de infraestrutura que criam interdependência difícil de reverter rapidamente.
Em uma ação recente, a China aprovou uma nova rodada de ajuda a Cuba que, segundo o Ministério das Relações Exteriores cubano, inclui US$ 80 milhões em assistência financeira emergencial para compra de equipamentos elétricos e outras “necessidades urgentes”, além de uma doação de 60 mil toneladas de arroz.
Ao mesmo tempo, investimentos em portos e corredores logísticos reforçam a presença chinesa de longo prazo, como o megaterminal de águas profundas do Porto de Chancay, inaugurado em novembro de 2024 no Peru, e os estudos em andamento para um corredor ferroviário bioceânico ligando o Brasil ao porto peruano.
Esses projetos fazem parte de uma estratégia que combina diplomacia econômica e participação nas cadeias de valor, e ajudam a explicar porque vários países latino-americanos cortaram relações com Taiwan em favor de Pequim.
Rússia, cooperação militar e influência seletiva
A influência russa nas Américas é menor em termos econômicos, mas tem forte presença geopolítica por meio de acordos militares e de inteligência.
O acordo de cooperação com a Nicarágua inclui envio de tropas, navios e aeronaves russos, exercícios conjuntos e sistemas de espionagem, de acordo com a imprensa independente nicaraguense, e o Kremlin mantém um acordo semelhante com Cuba.
Na avaliação de analistas, Moscou buscará explorar a ação dos EUA na Venezuela para alimentar narrativas antiestadunidenses na região. Natalie Sabanadze, pesquisadora do programa Rússia e Eurásia do think tank Chatham House, escreveu, “Moscou buscará tirar proveito disso, ao mesmo tempo que avança com maior confiança em sua narrativa de neocolonialismo ocidental”.
Doutrina Donroe e a resposta americana
Os EUA, sob a chamada Doutrina Donroe, buscaram afirmar prevalência no Hemisfério Ocidental e reduzir a influência de Pequim e Moscou, e a operação na Venezuela foi apresentada nesse contexto.
O presidente Donald Trump argumentou que Cuba convida “adversários perigosos dos Estados Unidos” a instalar bases e centros de inteligência, e afirmou, “Cuba abriga a maior instalação de inteligência de sinais da Rússia no exterior, que tenta roubar informações sensíveis de segurança nacional dos Estados Unidos. Cuba continua a construir uma profunda cooperação em inteligência e defesa com a República Popular da China”.
Além de medidas de segurança, Washington tem recorrido à coerção geoeconômica, inclusive com ameaças tarifárias contra países que mantiverem relações comerciais com Rússia e China. Essas medidas visam setores estratégicos mais do que uma tarifação generalizada, porque tarifas amplas podem gerar inflação e retaliações comerciais.
Desafios para a influência, riscos para a região
Em entrevista à Gazeta do Povo, o professor Eduardo Galvão, do Ibmec Brasília, resumiu os principais obstáculos para os EUA conterem Pequim e Moscou: “O primeiro desafio é estrutural e não apenas político”, disse ele, ao destacar que os laços econômicos com a China são profundos e difíceis de desfazer sem custos econômicos relevantes.
Galvão também explicou que a influência de China e Rússia é difusa, envolvendo desde acordos comerciais e participação em cadeias de valor, até contratos de tecnologia e parcerias multilaterais, o que exige alternativas não apenas coercitivas, mas comerciais e tecnológicas atraentes.
Dados comerciais ilustram essa integração, como o aumento das importações brasileiras da Rússia, de US$ 3,97 bilhões para US$ 10,29 bilhões entre 2019 e 2025, segundo a plataforma Comtrade das Nações Unidas, sendo a maior parte dessas compras de combustíveis e fertilizantes.
Para países da região, a competição entre potências externas traduz-se em riscos concretos, incluindo coerção seletiva, pressão setorial, polarização interna e incerteza para investidores. A estratégia americana pode limitar setores sensíveis, enquanto China e Rússia oferecem alternativas que preservam acesso a crédito e infraestrutura.
O que vem a seguir
Com a saída de Maduro, a dinâmica geopolítica nas Américas permanece complexa, e a presença da China e Rússia nas Américas deve seguir por vias econômicas, diplomáticas e militares.
Países latino-americanos enfrentarão decisões difíceis sobre alinhamentos, investimentos e independência estratégica ao longo de 2026, enquanto Washington tenta escalar ofertas alternativas sem provocar efeitos econômicos adversos na própria região.
A disputa entre potências mostra que a queda de um aliado não encerra nem reduz de imediato a influência externa, ela apenas redesenha prioridades e táticas, com consequências diretas para políticas públicas, mercados e estabilidade institucional na América Latina.