No modelo investigado, o Banco Master oferecia CDBs com rentabilidade alta, inflava ativos por meio de fundos e rolava vencimentos com cessões de carteiras, segundo a PF e o BC
O Banco Master, que tinha cerca de R$ 80 bilhões em ativos antes de ser liquidado pelo Banco Central em novembro de 2024, apresentou liquidez muito abaixo do esperado, com apenas R$ 4 milhões em caixa. Em depoimento à Polícia Federal, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, afirmou, literalmente, “Um banco de R$ 80 bilhões de ativos totais tem liquidez de R$ 3 bilhões, R$ 4 bilhões em títulos livres. O Master, antes da liquidação, tinha só R$ 4 milhões em caixa“.
A investigação da Polícia Federal e do Banco Central aponta que o grupo escalou ativos e captação por meio de CDBs com remuneração acima da média, triangulações via fundos e operações de cessão de carteiras, até que a confiança do mercado secou e o caixa colapsou.
Os detalhes sobre as práticas e os valores envolvidos estão no centro das apurações, que indicam suposta superavaliação de ativos e montagem de operações contábeis complexas, conforme informação divulgada pelo UOL.
Como funcionava o modelo de captação com CDBs
Segundo a apuração, o Banco Master expandiu ativos de cerca de R$ 3,7 bilhões em 2019 para R$ 82 bilhões em 2024 sob a gestão de Daniel Vorcaro. O crescimento foi impulsionado pela emissão massiva de Certificados de Depósito Bancário, produtos populares entre pessoas físicas por serem cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito, o FGC.
O banco prometia remuneração muito superior ao mercado, chegando a oferecer CDBs a 140% da taxa de referência em momentos em que concorrentes pagavam 100% da taxa, o que atraiu cerca de 1,6 milhão de clientes. Vorcaro declarou à PF que “O plano de negócios, desde 2018, que entregamos ao Banco Central, era baseado no FGC. O plano do Banco Master era 100% atrelado ao fundo, e não havia nada de errado nisso. Era a regra do jogo“.
Triangulações e fundos que inflaram ativos
Investigações do BC apontam que, diante da deterioração da liquidez entre 2023 e 2024, o Master passou a financiar empresas recém-criadas que aplicavam recursos em fundos da Reag Investimentos, hoje CBSF. Esse processo teria retirado cifras do balanço e as transferido ao mercado.
Em sequência, o dinheiro circulava por fundos ligados aos mesmos intermediários e era usado para comprar ativos de baixo valor real, como letras do extinto Besc, que podiam ter sido supervalorizadas. A apuração cita que o fundo High Tower adquiriu R$ 850 milhões em carteiras do Besc, mas declarou que elas valiam R$ 10 bilhões. O BC considerou suspeitos seis fundos da Reag, com patrimônio total de R$ 102,4 bilhões.
Venda de carteiras e os chamados “títulos podres” vendidos ao BRB
À medida que o modelo ficou insustentável, o Master teria buscado liquidez por meio de compras e cessões de carteiras de crédito consignado. O Banco Central identificou operações com a Tirreno Consultoria, criada em novembro de 2024, que teriam transferido ao Master direitos creditórios no valor de R$ 4,6 bilhões, sem a apresentação da documentação formal que comprovasse a existência real dos créditos.
Em abril de 2025, o Master teria adquirido novas operações da Tirreno por R$ 2,3 bilhões, novamente sem efetuar pagamento. As mesmas carteiras foram então revendidas ao BRB por R$ 12 bilhões, em operações que, para o BC, apresentam indícios de fraude e de engenharia contábil. Em outro ponto das apurações, cita-se o total de R$ 12,7 bilhões supostamente pagos pelo Banco de Brasília ao Master, dos quais, segundo Vorcaro, R$ 10,2 bilhões foram trocados por créditos consignados, imobiliários e corporativos, muitos sem liquidez.
O BC fez uma checagem aleatória de 30 CPFs de devedores dessas operações e não encontrou correspondência real, o que reforça a avaliação de que se tratariam de “títulos podres”. A área interna do INSS também aponta que o Master deixou de comprovar documentos de créditos consignados descontados na folha de pagamento de 251 mil pensionistas, assunto que deve ser investigado pela CPI do INSS no Senado.
Posição de Vorcaro e impactos esperados
Daniel Vorcaro negou fraudes à PF, admitiu crise de liquidez, e afirmou que honrou compromissos até a liquidação. Ele disse que não pagou “um real à Tirreno“, e que algumas operações foram interrompidas ou desfeitas antes da conclusão, segundo depoimentos.
Do outro lado, autoridades e técnicos estimam perdas relevantes. Paulo Henrique Costa, diretor afastado do BRB, afirmou à PF que o banco público deve arcar com um prejuízo de R$ 5 bilhões por conta das operações adquiridas do Master.
As investigações prosseguem na PF e no Banco Central, e há atenção sobre o destino dos recursos que teriam sido pagos ao Master, e sobre eventuais responsabilizações civis e penais. A crise deixou claro que a combinação de alta remuneração, estrutura complexa de fundos e operações contábeis pode mascarar liquidez real, com consequências para investidores, instituições e fundos garantidores.