Como a presença de agentes cubanos, o corte do fluxo de petróleo e a pressão dos EUA transformaram a relação Caracas-Havana, e por que o abastecimento de barris ainda decide vidas
Cuba sustentou Maduro por meio de apoio militar não declarado, silêncio diplomático e fornecimento de combustível a preços subsidiados, uma relação que ficou exposta após a operação da Força Delta e as mortes ocorridas em 3 de janeiro.
Havana decretou dois dias de luto oficial após a morte de mais de 30 integrantes dos ministérios do Interior e das Forças Armadas venezuelanas, entre eles cubanos, um gesto que revela a profundidade da presença cubana em solo venezuelano.
Os detalhes do envolvimento, e a dependência de Cuba do petróleo venezuelano, foram relatados por veículos que acompanharam a operação e suas consequências, conforme informação divulgada pela Aceprensa.
Negação, reconhecimento e o papel operacional de Havana
Em 2019, quando questionada sobre militares cubanos na Venezuela, a vice-ministra das Relações Exteriores de Cuba, Joana Tablada, negou categoricamente, afirmando, “Cuba não participa com pessoal em operações militares ou de segurança na Venezuela”, e classificou a alegação como caluniosa e ofensiva.
A negação contrastou com o reconhecimento público de Havana após o confronto que deixou dezenas mortos, quando o governo admitiu que agentes cubanos “estavam realizando missões (…) a pedido de agências congêneres no país sul-americano”. A mudança revela que o envolvimento deixou de ser apenas uma sombra diplomática, para se tornar uma evidência política e humana.
O jornalista cubano Carlos Cabrera, consultado por Aceprensa, afirmou que “os cubanos que morreram junto com o restante da equipe de segurança de Maduro não eram guarda-costas propriamente ditos, mas sim assessores de inteligência e contrainteligência”, indicando que a missão de Havana estava mais ligada à área de segurança estratégica do que à proteção direta do presidente.
O petróleo como moeda de troca e a conta que virou sangue
A relação econômica que sustentou a cooperação começou com o Acordo de Cooperação Abrangente assinado por Fidel Castro e Hugo Chávez em outubro de 2000, quando a Venezuela passou a enviar combustível subsidiado em troca de serviços cubanos, entre eles médicos e assessoria técnica.
O peso dessa troca é central para entender por que, como dizem analistas, “os 32 cubanos que acabaram de morrer morreram por causa do petróleo”, frase atribuída ao economista Omar Everleny Pérez Villanueva em entrevistas citadas pela imprensa internacional.
Omar Everleny destacou a redução dos volumes ao longo dos anos, ao afirmar, “Não estamos falando da era Chávez, quando o país era abastecido com cerca de 98 mil barris por dia. Em 2024, esse número já havia caído para cerca de 38 mil barris, e, em 2025, a média nunca ultrapassou 30 mil. Houve meses em que chegou a ser de apenas 18 mil barris por dia.”
A dependência petrolífera ajudou Havana a mitigar os efeitos do embargo norte-americano, e como lembra o economista cubano-americano Carmelo Mesa-Lago, “os danos causados pelo embargo foram estimados em US$ 130 bilhões em 2021”, e a ajuda e subsídios vieram primeiro da União Soviética, “US$ 65 bilhões entre 1960 e 1990”, e depois da Venezuela, “US$ 100 bilhões entre 2005 e 2017”.
Falhas de segurança, dados da operação e relatos sobre prisioneiros
Fontes consultadas por Cabrera disseram que o aparelho de segurança que cercava Maduro “interpretou mal” os sinais da operação, confiou excessivamente na fortificação onde o presidente estava e falhou em detectar a aproximação dos helicópteros da Força Delta, o que impediu uma evacuação oportuna.
Há ainda relatos extraoficiais sobre captura de prisioneiros cubanos feridos, que estariam sendo tratados e interrogados nos Estados Unidos. A combinação de erro de avaliação, rotina inalterada e falta de planos de contingência gerou, segundo fontes, um desastre completo no teatro das operações.
Impactos políticos, riscos para Havana e o futuro das relações
A retirada ou redução abrupta do envio de petróleo pode agravar dramaticamente a crise econômica em Cuba, elevando o risco de agitação social e ondas migratórias rumo aos Estados Unidos, uma preocupação recorrente em Washington, devido à proximidade entre as ilhas.
O novo governo venezuelano, que assumiu após a operação, ainda não anunciou rompimento das relações com Havana, e analistas observam que, em teoria, “as relações deveriam ser mantidas”, porque Delcy Rodríguez é 100% chavista, mas a pressão dos EUA poderá exigir cortes no fornecimento de petróleo a Cuba, uma ação que seria fatal para a economia da ilha, segundo especialistas citados na cobertura.
Para Havana, portanto, fica a incerteza, enquanto o custo humano e estratégico da cooperação com Caracas virou público, e a frase repetida por analistas sintetiza a lógica que manteve o vínculo, Cuba sustentou Maduro, em grande parte, por causa do petróleo, do silêncio político e do apoio em áreas de inteligência e segurança.