Ipea aponta menor Gini da série, desemprego histórico de 6,4% e queda da pobreza, mas especialistas afirmam que concentração de riqueza mantém a desigualdade social
O Brasil registrou em 2024 os menores índices de desigualdade e pobreza da série histórica iniciada em 1995, e a maior renda média registrada para o período.
O avanço, segundo pesquisadores, se deu por aquecimento do mercado de trabalho e por programas de transferência de renda, com destaque para os períodos de 2003 a 2014 e de 2021 a 2024.
Estes números, no entanto, não apagam a persistente concentração de riqueza e as limitações no acesso a serviços públicos essenciais, conforme informação divulgada pelo Ipea, com dados do IBGE.
Avanços estatísticos e pontos-chave
Entre os indicadores divulgados, a renda média domiciliar per capita cresceu cerca de 70% desde 1995, alcançando R$ 2.015 em 2024, valor corrigido pela inflação e que representa a média mensal recebida por todas as pessoas de uma casa.
A desigualdade recuou 18%, e o Coeficiente de Gini do país marcou 0,504 em 2024, o menor valor da série histórica.
A pobreza extrema, que atingia 25% da população em 1995, caiu para menos de 5%. O Banco Mundial considera que há fome quando a população vive, em média, com até US$ 3 por dia (R$ 267 mensais em valores médios de 2024), e o Brasil saiu do mapa da fome em 2014 e em 2025.
Já a pobreza, definida pelo Banco Mundial como renda de até US$ 8,30 por dia (R$ 738 mensais em valores médios de 2024), caiu de 61,2% em 1995 para 26,8% em 2024.
Mercado de trabalho e políticas públicas
O estudo aponta que o aquecimento do mercado de trabalho foi central para a melhora dos indicadores, e que, em 2024, o país teve a menor média histórica de desemprego (6,4%).
Programas de redistribuição de renda, como o Bolsa Família, ampliaram o consumo e garantiram uma renda básica para milhões de famílias, contribuindo para a diminuição da pobreza e da fome.
Limites da melhora, concentração de riqueza e análise por classes
Especialistas ouvidos destacam que os ganhos médios não revelam totalmente a realidade social, por causa da forte concentração de renda entre uma pequena elite.
Guilherme Klein, do Made-USP, afirma que a alta concentração de riqueza nas mãos de poucos mascara a real desigualdade e a renda média do brasileiro, e que é necessário examinar cada classe separadamente para avaliar o desenvolvimento social.
Renata Bichir, especialista em políticas públicas, lembra que o acesso a empregos de qualidade e a serviços como educação e saúde é essencial, e que, para avaliar o bem-estar social, é preciso olhar além da renda, para moradia, ensino e saúde.
Impacto do Bolsa Família e trajetórias de saída
Um estudo da FGV mostra que 60,68% dos usuários do Bolsa Família em 2014 deixaram o programa até 2025. A pesquisa aponta ainda que 79,4% desses beneficiários saíram do programa por terem conquistado carteira de trabalho assinada, o que sugere ganhos de autonomia e mobilidade social.
Depoimentos pessoais ilustram essa trajetória. Renata Souza, ex-beneficiária do Bolsa Família, afirma, “Sou filha de políticas públicas”, e conta que, após concluir a educação básica com o apoio do programa e de outras políticas públicas, conseguiu bolsas, trabalhos melhores e formação acadêmica. Ela diz, “Sou a primeira da minha família que tem um ensino superior e isso mudou a minha vida.”
Vilma Neves, que também deixou o Bolsa Família, relata que o benefício foi essencial para sustento e alimentação e que o trabalho a retirou do programa. Ela afirma, “O acesso ao mercado de trabalho para mim foi o que me retirou do benefício. […] Ele tem que ser essa ferramenta de pontapé inicial. Ele não pode ser a chegada.”
O que falta para avançar mais
Para ampliar os progressos, economistas apontam a necessidade de políticas que enfrentem a concentração de renda, melhorem a qualidade do emprego e ampliem o acesso a educação e saúde públicas.
Entre propostas citadas, está a revisão do sistema tributário e maior tributação sobre grandes fortunas para financiar investimentos em pilares do desenvolvimento social.
Os dados mostram avanços importantes, mas especialistas destacam que reduzir a desigualdade social de forma consistente exige ações que atuem sobre a estrutura econômica e as oportunidades, para além das melhorias médias apresentadas pelas estatísticas.