Crise venezuelana evidencia que a Diplomacia de Lula não tem credibilidade nem neutralidade, e o Brasil ficou à margem das decisões após ação dos Estados Unidos
A captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro por forças dos Estados Unidos em Caracas abriu um novo capítulo da crise na Venezuela e expôs limites da ação brasileira no plano internacional.
Especialistas ouvidos apontam que, apesar de notas oficiais e da disposição declarada por Brasília em buscar solução pelo direito internacional, o país não reúne hoje isenção, peso político nem confiança para mediar a transição venezuelana.
Ao final da introdução, cabe registrar, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
Por que os EUA não consultaram o Brasil
Para analistas, a decisão americana de planejar e executar a operação sem considerar o Brasil reflete uma percepção de perda de protagonismo regional. O jurista Luiz Augusto Módolo é taxativo sobre a possibilidade de os EUA manterem o Brasil fora do processo, ele afirma, “melhor ignorarem mesmo”.
Módolo acrescenta que “o chavismo, e o governo ditatorial de Maduro, cresceu “sob as barbas” do Brasil”, especialmente em governos petistas, e que a diplomacia brasileira, por omissão e alinhamentos, contribuiu para o cenário atual.
O comentarista político André Marsiglia reforça a ideia de que não existe, hoje, status internacional suficiente para que Donald Trump leve a sério uma oferta de mediação do presidente Lula, e lembra que tentativas anteriores de protagonismo, como ofertas de mediação em outros conflitos, não tiveram repercussão concreta.
Histórico que compromete a mediação
Especialistas destacam que a atual situação é fruto de décadas de política externa ambígua. Segundo relatos citados, o apoio brasileiro ao chavismo foi em momentos ostensivo, com gestos que incluíram vídeos de apoio e atuação em campanhas, e movimentações financeiras que hoje entram no debate sobre responsabilidade.
Na avaliação de críticos, episódios como o envio de recursos via BNDES, as manobras para incluir a Venezuela no Mercosul e o silêncio diante de fraudes eleitorais e violações de direitos humanos corroeram a credibilidade do país.
O constitucionalista Alessandro Chiarottino afirma que o alinhamento ideológico do governo, e declarações de figuras públicas como José Dirceu, “defendendo abertamente a implantação do socialismo”, ajudam a reduzir a percepção de neutralidade do Brasil.
Posição oficial e possíveis consequências regionais
O Itamaraty e a Presidência classificaram os fatos como graves, afirmando que os “ataques militares em solo venezuelano” e a captura do “chefe de Estado” são “violações graves da soberania e do direito internacional”, capazes de gerar um precedente perigoso para a ordem global.
O governo brasileiro reafirmou a rejeição ao uso unilateral da força, a defesa do multilateralismo, do diálogo e da solução pacífica de controvérsias, e assinou nota conjunta com México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha pedindo que a crise seja enfrentada por meios pacíficos e no âmbito de organismos multilaterais.
Para analistas, no entanto, a declaração oficial deverá se limitar a notas protocolares, porque, segundo Módolo, “O Estado não é apenas território, governo e soberania. Ele também é povo. Quando um governo usa a soberania como biombo para oprimir sua população, ele deixa de cumprir suas obrigações internacionais”.
O que vem a seguir
Sem reconhecimento internacional claro de neutralidade e com o histórico apontado por críticos, a capacidade de o Brasil exercer mediação efetiva na Venezuela parece reduzida. Observadores afirmam que o país pode ficar à margem das decisões que moldarão o futuro da região no pós-chavismo, enquanto lida com as consequências humanitárias e políticas na fronteira e entre países vizinhos.
O episódio tende a ser um divisor de águas para a Diplomacia de Lula, testando se o país conseguirá recuperar credibilidade ou se permanecerá excluído das decisões estratégicas na América do Sul.