Estatais federais enfrentam rombos e buscam socorro financeiro urgente do Tesouro Nacional, complicando as contas públicas.
A saúde financeira das empresas estatais federais se tornou uma preocupação central para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Um recente relatório do Ministério da Fazenda apontou fragilidade em nove das 27 estatais, com duas delas, os Correios e a Eletronuclear, buscando aportes diretos do Tesouro para cobrir seus déficits.
Os pedidos de socorro totalizam R$ 21,4 bilhões, quantia que impacta diretamente o espaço fiscal do governo e a meta de resultado primário. Especialistas alertam para a gravidade da situação e para os desafios de gestão que levaram a esses rombos crescentes.
A situação das estatais federais e os pedidos de socorro ao Tesouro Nacional foram detalhados em reportagem do jornal O Globo, que também abordou os impactos fiscais e os planos de recuperação em curso para as empresas citadas.
Correios em busca de R$ 20 bilhões para reestruturação
Os Correios solicitaram um aporte de R$ 20 bilhões ao Tesouro Nacional para tentar reverter seu quadro financeiro. A estatal registrou um prejuízo de R$ 4,4 bilhões no primeiro semestre de 2025 e as expectativas de lucro só apontam para 2027, segundo o presidente da empresa, Emmanoel Rondon.
O governo busca viabilizar um empréstimo para os Correios com bancos públicos e privados, com aval do Tesouro. No entanto, a operação enfrenta desconfiança do mercado, que considera o valor insuficiente para modernizar o modelo de negócios e garantir a competitividade da empresa.
Um plano de recuperação foi apresentado pela diretoria dos Correios, incluindo um Programa de Demissões Voluntárias (PDV) com o objetivo de reduzir o quadro em pelo menos 10 mil funcionários. A proposta também prevê a venda de imóveis ociosos, renegociação de contratos e o fechamento de até mil agências deficitárias.
Eletronuclear pede R$ 1,4 bilhão para evitar insolvência
A Eletronuclear, responsável pelas usinas de Angra 1 e 2 e pela obra da usina de Angra 3, enviou um pedido urgente de R$ 1,4 bilhão ao governo para evitar a insolvência e honrar compromissos de curto prazo. A estatal projeta que seu caixa ficará negativo já neste mês.
A situação da Eletronuclear é mais delicada, pois, por determinação legal, a empresa não pode ser privatizada, sendo a União a única administradora de usinas nucleares. A estatal já possui dívidas de curto prazo com bancos como ABC e BTG Pactual, totalizando cerca de R$ 570 milhões com vencimento em dezembro de 2025.
A necessidade de financiamento para o programa de extensão de vida útil de Angra 1 e para a manutenção de Angra 3 projeta o esgotamento do caixa da Companhia em novembro de 2025. A empresa alerta que, sem o ingresso de recursos de uma emissão de debêntures, poderá incorrer em inadimplemento de outras dívidas.
Impacto fiscal e a gestão petista sob escrutínio
O economista-chefe do BDMG, Izak Carlos Silva, ressalta que os aportes solicitados pelas estatais, totalizando R$ 21,4 bilhões, consomem boa parte do espaço fiscal do governo. Ele aponta que esse valor é quase o limite do déficit primário assumido para o ano e similar ao que se esperava arrecadar com a mudança do IOF.
O Tribunal de Contas da União (TCU) anunciou que fiscalizará e acompanhará a delicada situação fiscal e de gestão das entidades estatais. Dados do Banco Central indicam que as estatais federais registraram um déficit recorde de R$ 6,35 bilhões até outubro de 2025, com o desempenho negativo se intensificando desde 2023.
Silva critica a gestão de empresas estatais em governos do PT, afirmando que, historicamente, essas empresas registravam superávits e lucros antes de 2023, quando os prejuízos começaram a crescer. O ministro Haddad, por sua vez, justifica parte do déficit com investimentos de longo prazo, mas a contabilidade das estatais é questionada.
Angra 3: um projeto de décadas e custos bilionários
A conclusão da usina de Angra 3, que se arrasta por quatro décadas e já consumiu cerca de R$ 12 bilhões, é um dos grandes gargalos da Eletronuclear. A construção, iniciada em 1984, sofreu paralisações e foi marcada por investigações de corrupção.
Um estudo recente estima em R$ 23,9 bilhões o custo necessário para a finalização do projeto, indicando que o retorno é mais vantajoso do que o abandono. A decisão sobre a retomada das obras caberá ao Planalto, com expectativa de um posicionamento firme do governo nos próximos meses.
A Âmbar Energia, braço do grupo J&F, assinou contrato para adquirir a participação privada na Eletronuclear, o que pode ajudar na gestão financeira e na conclusão de Angra 3. No entanto, a especialista Andréa Navarro explica que a Âmbar não tem obrigação legal de participar de eventuais aportes ao Tesouro Nacional, que ficariam a cargo da União.