No lançamento do livro ‘Capitalismo superindustrial’, o ministro afirmou que publicou a obra apesar de reconhecer a carga ideológica, criticou a experiência soviética e apontou fragilidades na democracia brasileira
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, participou neste sábado de um evento em São Paulo para lançamento de seu livro, e voltou a comentar ideias de Karl Marx, em um debate que misturou análise política e memória pessoal.
Haddad disse que, estando à frente da Fazenda, “não é muito recomendável que o ministro da Fazenda publique um livro desse”, em referência à carga ideológica da obra, e afirmou ter estudado Marx ao se deparar com as contradições da União Soviética.
Ao comentar a situação política do país, Haddad avaliou que “a democracia brasileira é “problemática” e “um pouco frágil” porque “a classe dominante do Brasil entende o Estado como o dela.”, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
Declarações sobre Marx e a União Soviética
No debate, Haddad disse que “nunca curtiu” a União Soviética, e que essa aversão o levou a estudar Karl Marx para entender a distância entre a teoria e as práticas stalinistas.
O ministro questionou a legitimidade da experiência soviética em nome das ideias do pensador, ao afirmar, “Os caras estão fazendo aquilo (na União Soviética) em nome desses caras (Marx)? Tem alguma coisa confusa acontecendo. Esse cara aqui não pode ter gerado uma experiência tão autoritária quanto aquela”.
Reconhecimento da carga ideológica e permanência no cargo
Haddad assumiu a contradição de ser titular da Fazenda e autor de textos com carga ideológica, ao repetir que “não é muito recomendável que o ministro da Fazenda publique um livro desse”.
Ele também explicou que não quis deixar o cargo antes de lançar a coletânea, que reúne artigos produzidos durante seu mestrado em Economia e doutorado em Filosofia, porque acredita que “a razão pela qual se entra na política é tentar encontrar caminhos”.
Trajetória pessoal e escolha de leitura
Em tom pessoal, Haddad contou que teve aversão à leitura no início da vida, lembrando que, antes da faculdade, “até entrar na faculdade de Direito, eu nunca tinha lido um livro que não fosse necessário para passar no vestibular”. O relato foi usado para marcar a continuidade entre sua formação e a produção intelectual atual.
Impacto político e próximos passos
O ministro, que foi substituto do presidente Lula nas eleições de 2018, tem sido cobrado pelo partido para disputar o governo de São Paulo, mas disse que pretende atuar na campanha de Lula e anunciou que deixará a Fazenda.
Ao longo do evento, a postura de Haddad ao discutir Marx, a União Soviética e a situação institucional do Brasil reforçou a leitura de que o lançamento busca conciliar reflexão acadêmica e posicionamento político, e gerou repercussão entre aliados e adversários.
Haddad defende Marx como tema do debate público, ao mesmo tempo em que reconhece as tensões entre teoria e prática histórica, e admite que a publicação carrega uma carga ideológica que chama atenção dada sua posição no governo.