Juros altos de 15% e política monetária mais restritiva pressionam produção, investimentos e consumo, e deixam indústria com avanço limitado em 2025, diz IBGE
A indústria brasileira fechou 2025 com crescimento tímido de 0,6%, resultado que reflete um ano de desaceleração da atividade fabril.
A trajetória fraca foi marcada por recuos mensais e por menor dinamismo em investimentos e demanda doméstica, fatores associados aos custos do crédito.
No fim do ano, a produção voltou a cair em dezembro, aprofundando sequência de resultados fracos observada desde setembro.
conforme informação divulgada pelo IBGE.
Desempenho anual e comparação com padrões históricos
Em 2025 o avanço de 0,6% foi sustentado por apenas duas das quatro grandes categorias econômicas e por menos da metade dos produtos pesquisados pelo IBGE. Apesar do crescimento, a produção industrial permanece apenas 0,6% acima do nível pré-pandemia, registrado em fevereiro de 2020, e segue 16,3% abaixo do pico histórico de maio de 2011, indicando uma recuperação incompleta do setor.
O resultado de 2025 também mantém a tendência de desaceleração, após expansão de 3,1% em 2024 e de 0,1% em 2023.
Juros elevados, cortes previstos e impacto sobre investimentos
Os juros elevados, com a taxa básica de juros em 15% há cinco reuniões do Comitê de Política Monetária, são apontados como o principal freio para o avanço da indústria e do consumo das famílias.
Na ata do último encontro, divulgada mais cedo, a autoridade monetária sinaliza que começará a cortar a Selic a partir de março com moderação, mas o efeito sobre decisões de investimento tende a ser gradual.
“Esse menor dinamismo guarda uma relação importante com a política monetária mais restritiva, especialmente marcada pelo aumento na taxa de juros, o que impacta diretamente das decisões de investimento por parte das empresas e de consumo por parte das famílias”, explica André Macedo, gerente da pesquisa.
Setores que puxaram alta e os que revezaram perdas
As principais contribuições positivas em 2025 vieram das indústrias extrativas, com alta de 4,9%, e do setor de produtos alimentícios, que avançou 1,5% ao longo do ano. Segundo o gerente da pesquisa, “O setor extrativo, especialmente impulsionado pelo petróleo, é o principal destaque positivo. É o que garante o avanço do total do setor industrial, ao passo que a indústria de transformação teve uma perda de 0,2% no ano de 2025”, avaliou Macedo.
Na outra ponta, o setor de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis recuou 5,3% em 2025 e exerceu a maior influência negativa sobre a média da indústria. A indústria de transformação, mais sensível ao crédito e ao custo do capital, encerrou o ano com recuo de 0,2%.
Queda em dezembro e sinais setoriais apontam para fragilidade no curto prazo
Em dezembro a produção industrial recuou 1,2% frente a novembro, aprofundando a sequência de resultados fracos iniciada em setembro, quando a indústria acumulou perda de 1,9%, registrando a maior queda mensal desde julho de 2024.
Na comparação com dezembro do ano anterior houve avanço de 0,4%, o que interrompeu dois meses consecutivos de retração, porém a média móvel trimestral permaneceu negativa em -0,5%.
A queda de dezembro foi disseminada, atingindo todas as grandes categorias econômicas e 17 dos 25 ramos pesquisados. O principal impacto negativo veio do setor de veículos automotores, que despencou 8,7% no mês, seguido por produtos químicos com queda de 6,2%, e metalurgia, que recuou 5,4%.
A queda em veículos foi a maior para essa atividade desde maio de 2024, quando houve recuo de 11,6%, e incluiu perdas em automóveis, caminhões e autopeças, segundo o gerente da pesquisa.
Fatores operacionais, como paralisações e férias coletivas, também colaboraram para o desempenho negativo de dezembro em vários setores, enquanto o segmento de coque e derivados teve recuperação no mês, com avanço de 5,4%, interrompendo três meses consecutivos de queda.
O conjunto de dados reforça que, embora alguns segmentos ainda puxem o resultado positivo anual, a combinação de juros altos, custos de financiamento e fraqueza na demanda doméstica limita a retomada mais ampla da indústria brasileira.