Arquivos do Departamento de Justiça indicam que Epstein buscou acesso a modelos brasileiras, discute compra de empresas de moda e usou intermediários para recrutamento, segundo documentos liberados
Os novos arquivos liberados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos apontam para uma possível atuação de Jeffrey Epstein no Brasil, com mais de quatro mil documentos fazendo referência ao país.
Mensagens trocadas com o ex-agente de modelos francês Jean-Luc Brunel sugerem que ele atuava como um intermediário para recrutar mulheres brasileiras, e há registros de tentativas de negócios no setor de moda em 2016.
Essas informações foram divulgadas em reportagens e nos próprios arquivos públicos, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
O que os documentos revelam
Entre os milhares de arquivos existe um conjunto de e-mails e depoimentos que mostram interesse em empresas brasileiras de moda e propostas para organizar castings e concursos de beleza, com o objetivo declarado de encontrar “rostos novos” para editoriais.
Os documentos relatam, em específico, uma proposta comercial de 2016 para adquirir uma agência de modelos no Brasil, oito anos após a condenação de Epstein por aliciar uma menor de idade, e descrevem a busca por um acesso mais direto a jovens candidatas.
Conexão com Jean-Luc Brunel e a agência MC2
Conforme os arquivos, Jean-Luc Brunel, ex-agente de modelos acusado de crimes sexuais, era referido como um tipo de “braço direito” de Epstein para recrutar mulheres brasileiras para o esquema de tráfico sexual.
Brunel, que cofundou a agência MC2 em Miami, contou com apoio financeiro de Epstein, e, segundo reportagem do The Guardian em 2019, recebeu múltiplas acusações de tráfico sexual e agressões. Ele foi preso em 2020 e, em 2022, foi encontrado morto em uma cela na prisão em Paris.
Mensagens e citações que ligam Epstein ao Brasil
Os arquivos contêm diálogos diretos entre Epstein e interlocutores sobre modelos e negócios. Em uma troca sobre a modelo brasileira Luma de Oliveira, Brunel escreveu, “Já mencionei Luma de Oliveira, ele [Eike Batista] era ou é casado com ela”, e Epstein respondeu, “Namorada de Eike Batista? Você mencionou isso para mim?”.
Em outro e-mail, um colaborador descreve oportunidades comerciais, afirmando, “Há duas revistas de moda à venda no Brasil que estou de olho. Acho que seria divertido fazer castings para editoriais e modelos de capa em Nova York e talvez contribuir com algum conteúdo, etc.”.
O mesmo remetente relata preocupações com a lentidão do processo, dizendo, “O Brasil é lento! É por isso que não entrei em contato antes, não havia nenhuma informação nova”. Epstein, em resposta, chegou a perguntar, “Você quer possuir uma parte da alegria?”.
Depoimentos e alegações sobre recrutamento
Um depoimento de 2010 na Justiça da Flórida incluído nos arquivos afirma que Epstein viajava frequentemente ao Brasil e mantinha contato com uma mulher que fornecia garotas para fins sexuais, inclusive menores de idade.
O nome da recrutadora teve sigilo nas peças, mas a testemunha disse que ela trabalhava para Jean-Luc Brunel, e que a agência fundada pelo francês era, em grande parte, sustentada por Epstein, conforme consta nos processos divulgados.
Os documentos não estabelecem sozinho uma cadeia final de responsabilidade no Brasil, mas ampliam o mapa de contatos e intenções comerciais de Epstein, reforçando atenção sobre possíveis conexões locais.
Especialistas em direitos humanos e as autoridades norte-americanas continuam a analisar os arquivos, enquanto jornalistas levantam novas pontas que ligam o financiamento, agentes de modelos e estratégias de recrutamento ao que agora se apresenta como um padrão internacional de exploração.