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O Ano da “Pessoa Performativa”: Autenticidade em Risco na Era da Exposição Constante e da Vigilância Digital

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A Era da Teatralidade: Viver para Ser Visto ou Ser Autêntico?

A internet, especialmente o TikTok, popularizou o termo “pessoa performática”, descrevendo quem vive com uma plateia sempre em mente. Essa tendência levanta questões sobre a autenticidade em um mundo onde a exposição constante nas redes sociais se tornou a norma.

O rótulo “homem performático” ganhou força em discussões online, mas o fenômeno transcende o digital. Ele se manifesta em comportamentos offline, como a estética cultivada para atrair olhares, levantando debates sobre a autenticidade versus a encenação.

Análises em publicações como Le Monde e The New Yorker exploram a dificuldade de definir o que é “performativo” em uma sociedade acostumada a ser percebida através das câmeras e das redes sociais. Conforme informação divulgada pelo Gazeta do Povo, a obsessão pela performance é um reflexo do cansaço de viver para um público invisível e da dificuldade em distinguir encenação e autenticidade.

A Dualidade da “Performance”

A linguista Noémie Marignier, da Universidade Sorbonne, explica que a palavra “performativo” possui dois significados. O primeiro, da Teoria dos Atos de Fala, sugere que “dizer é fazer”.

Judith Butler expandiu essa ideia ao gênero, mostrando como práticas cotidianas constroem nossa identidade. O que vestimos e como agimos são atos que moldam quem somos, tornando a identidade algo que se faz, não apenas que se é.

O segundo significado refere-se à “encenação” de si na esfera pública, a autorrepresentação. É nesse sentido que o termo é usado nas redes sociais, mas com a ressalva de que essa projeção é frequentemente vista como falsa.

O Impacto do Ecossistema Digital

Não é surpreendente que a obsessão com o “performativo” tenha se originado no ambiente digital. Jovens da Geração Z e millennials cresceram consumindo a vida alheia e exibindo a própria, moldando a percepção sobre identidade e exposição.

As redes sociais priorizam a manutenção e o monitoramento da imagem online. Elas criaram espaços onde a construção da identidade é central para a experiência do usuário, como analisado por Brady Brickner-Wood no The New Yorker.

Embora a Geração Z seja frequentemente citada, qualquer pessoa familiarizada com a câmera frontal do celular se acostumou a documentar a própria vida, tornando difícil imaginar a existência sem um público.

A Busca Incansável por Autenticidade

Poucos escapam de uma vida online, inerentemente artificial. Muitos tentam, e comunicam, seus esforços para serem autênticos, impulsionados pelo cansaço da “câmera mental” que transforma a vida em conteúdo.

No mundo real, gestos espontâneos são possíveis, mesmo em público. No ambiente digital, tudo tende a ser planejado, premeditado, o que afasta a espontaneidade.

Freya India, autora de Substack Girls, ressalta uma verdade fundamental que as mídias sociais tentam nos fazer esquecer: “Estranhos não se importam com você, e essa é uma verdade fundamental que as plataformas de mídia social precisam que esqueçamos.”

Desde o início das plataformas, surgiram “guardiões da autenticidade” criticando qualquer ato que soe a “performance”. O que antes era “sinalização de virtude” (declarar opiniões para parecer moralmente superior sem ação) agora se manifesta como “masculinidade performativa” ou “leitura performativa”.

A Linha Tênue Entre o Real e o Virtual

Fora das telas, discernir a autenticidade é igualmente desafiador. Presumir que alguém lê um livro em um parque apenas para ser visto é uma forma específica de interpretar a realidade social.

O arquétipo da pessoa pretensiosa ou do “aliado feminista” que busca atenção feminina já existia antes das redes sociais. Contudo, reduzir comportamentos a padrões estéticos para decifrar intenções é algo inédito, impulsionado pelos algoritmos.

O “cara performático” na rua, provavelmente, não será notado por mais de cinco segundos. Fora da internet, a preocupação com a sua vida, a autorrepresentação ou a autenticidade perde importância, assim como a vigilância sobre o que os outros fazem.

Talvez por isso, os “terceiros espaços” sejam tão cruciais. E talvez seja por isso que homens com sacolas de pano e chá matcha se reúnem em parques e universidades para debater o meme que os ridiculariza, uma forma de comunicação exclusivamente online, evidenciando a complexidade da autenticidade na era digital.

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