Entenda como a presença de agentes de Havana ao redor de Maduro, a retirada do rótulo de líder do Cartel de Los Soles na nova acusação dos EUA e a descrição do grupo como um “sistema de clientelismo” mudam o cenário
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por ação dos Estados Unidos reacendeu perguntas sobre quem zelava por sua segurança e por que, durante décadas, Havana manteve laços tão próximos com Caracas.
Na nova denúncia apresentada pelo Departamento de Justiça dos EUA, chama atenção a mudança de tom em relação ao chamado Cartel de Los Soles, e a retirada da referência a Maduro como líder direto do grupo.
Também ganhou repercussão a alegação de que “32 cubanos que fariam parte da equipe de segurança do chavista teriam sido mortos na ofensiva americana”, fato que ilustra a dimensão da presença cubana, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
O que mudou na denúncia dos EUA
A nova acusação do Departamento de Justiça diminuiu referências que vinculavam explicitamente Maduro como chefe do Cartel de Los Soles, uma alteração que altera narrativas jurídicas e políticas sobre a estrutura do crime na Venezuela.
Além disso, o Cartel de Los Soles deixou de ser tratado na denúncia como uma organização dirigida por um único líder, passando a ser descrito como um “sistema de clientelismo“, termo que alude a relações de poder e favores entre estamento militar, político e redes ilícitas.
Especialistas em direito internacional e segurança indicam que a mudança pode refletir dificuldades de provar em tribunal a cadeia de comando direta, ou uma estratégia para focar em provas transnacionais e financeiras, em vez de apontar uma única figura como cabeça do esquema.
Por que Cuba cuidava da segurança venezuelana
A presença cubana na proteção de Maduro tem raízes históricas, políticas e militares, explicam analistas: Havana e Caracas firmaram cooperações em inteligência, treinamento de forças e serviços médicos, trocando apoio político e serviços técnicos por petróleo e influência.
O número citado pela Gazeta do Povo, de “32 cubanos que fariam parte da equipe de segurança do chavista teriam sido mortos na ofensiva americana”, mostra que o contingente cubano não era só simbólico, ele podia integrar equipes operacionais diretamente envolvidas na segurança do presidente.
Para Cuba, proteger aliados na região era também uma forma de manter canais de influência na América Latina, garantir a sobrevivência de acordos econômicos e preservar núcleos de inteligência que atuavam em conjunto com forças leais a Maduro.
Risco de migração do crime organizado para o Brasil
Analistas consultados apontam que a intensificação da ação americana na Venezuela e a captura de lideranças podem gerar deslocamentos do crime transnacional, com grupos e traficantes buscando rotas e abrigos em países vizinhos, entre eles o Brasil.
Movimentos de grupos armados e de redes logísticas têm como objetivo evitar cerco e apreensão de ativos, o que pode traduzir-se em aumento de tráfico de drogas, contrabando e violência em áreas de fronteira, pressupondo desafios adicionais de segurança para estados brasileiros com fronteiras permeáveis.
Autoridades brasileiras e especialistas em segurança recomendam reforço da cooperação binacional, compartilhamento de inteligência e ações coordenadas para conter possíveis fluxos de criminosos e evitar que a desorganização na Venezuela provoque crise regional.
O que fica para a política regional
Além dos efeitos imediatos sobre segurança e migração do crime, a nova denúncia e a divulgação de detalhes sobre a proteção de Maduro por agentes cubanos influenciam o xadrez geopolítico da região.
Com a retirada da acusação de liderança direta do Cartel de Los Soles, os Estados Unidos podem passar a priorizar ações contra estruturas financeiras e redes de apoio, enquanto países vizinhos têm de se preparar para consequências humanitárias e de segurança.
Em resumo, a discussão sobre a segurança cubana de Maduro revela laços estratégicos e operacionais de longa data, enquanto a mudança de enfoque na denúncia dos EUA e a caracterização do Cartel como “sistema de clientelismo” alteram como casos de narcotráfico e corrupção poderão ser tratados nas cortes internacionais e nas fronteiras da América do Sul.