Por que o terceiro-mundismo converte a descolonização em doutrina, transformando Israel em ícone do Ocidente e os EUA em alvo simbólico do ativismo global
A resposta a ataques, protestos e debates recentes não pode ser entendida apenas como reação a eventos locais, ela reflete um quadro intelectual mais amplo.
Uma visão de mundo nascida nas décadas de 1950 e 1960, e rearticulada nas universidades ocidentais, converte a ideia de descolonização em uma espécie de teologia política.
Essa lógica fornece um roteiro moral que identifica opressor e oprimido de forma quase automática, e articula solidaridades globais que muitas vezes ignoram contextos históricos e nuances.
conforme informação divulgada pelo City Journal, publicada com permissão na Gazeta do Povo.
Origem intelectual e transformação da descolonização
A discussão contemporânea sobre o papel do terceiro-mundismo no ativismo anti-Israel e anti-EUA remete a debates intelectuais do final dos anos 1960, conforme exposto em análise publicada no City Journal.
Maxime Rodinson, analisando o sionismo após a Guerra dos Seis Dias, ofereceu uma leitura que interpretava o movimento judaico como um projeto de colonização de povoamento, e essa categoria circulou e se expandiu nas décadas seguintes.
Edward Said, com Orientalismo, e Frantz Fanon, com Os Condenados da Terra, deram à denúncia colonial uma dimensão cultural e psicopolítica, promovendo uma narrativa em que a violência de libertação aparece como comprovadora de legitimidade.
Da academia para as ruas, como a doutrina virou mobilização
Nas universidades americanas e europeias, o vocabulário decolonial se institucionalizou em cursos e pesquisas, e categorias como “colonialismo de povoamento” e “colonialismo por procuração” passaram a ser aplicadas a Israel, sem que a cronologia histórica hodierna fosse necessariamente considerada.
Isso explica por que slogans como “descolonização não é uma metáfora” e pedidos de “globalização da Intifada” ganharam força entre manifestantes, e por que protestos em cidades como Roma, Londres e Nova York reproduziram as mesmas leituras simplificadas do conflito.
Uma frase provocadora publicada por Najma Sharif após 7 de outubro resumiu esse espírito ao escrever no X, “O que vocês achavam que era a descolonização? Estética? Artigos acadêmicos? Ensaios? Perdedores”.
Como a lógica classifica atores e ignora complexidades
O mecanismo interpretativo do terceiro-mundismo funciona por binários, ele categoriza Estados e movimentos segundo se encaixam na matriz opressor versus oprimido.
Quando Israel é definido antecipadamente como a “colônia de povoamento” final do Ocidente, qualquer resistência palestina tende a ser naturalizada como legítima, e as distinções entre grupos políticos, civis e terroristas perdem peso no julgamento moral.
Essa redução torna inviável reconhecer vítimas do lado considerado “oprimido”, porque admitir tais fatos quebraria a coerência simbólica do modelo, e exigiria uma leitura mais complexa da história e da política.
Implicações para os Estados Unidos e para a política doméstica
O terceiro-mundismo não se limita a explicar atitudes sobre Israel, ele também organiza críticas mais amplas aos Estados Unidos, enquadrando a potência americana como o grande sustentáculo do projeto ocidental que supostamente produz injustiças globais.
Na prática, isso significa que a hostilidade a Israel muitas vezes funciona como um substituto aceitável para críticas profundas à política e à identidade americanas, porque ataca um símbolo em vez de enfrentar instituições complexas.
Figuras políticas formadas nesse ambiente intelectual, segundo o City Journal, traduzem essa visão em discursos e propostas, integrando a retórica decolonial a agendas que vão do policiamento à imigração e à crítica ao capitalismo.
Consequências para o debate público e para a negociação
Uma consequência direta da naturalização dessa matriz interpretativa é a dificuldade de negociar soluções políticas, porque o conflito deixa de ser entendido como um problema passível de acordo e se transforma em um duelo moral entre civilizações.
Ao remodelar o conflito como uma reprise da Argélia dos anos 1950 e 1960, como argumenta a análise, a teoria decolonial torna a negociação inevitavelmente insuficiente, já que o objetivo passa a ser o desmantelamento em vez da coexistência ou da reconciliação.
Na esfera pública brasileira, e globalmente, compreender essa genealogia intelectual é essencial para distinguir entre crítica legítima às políticas de um Estado e a adoção de uma narrativa que simplifica, polariza e muitas vezes incentiva a violência simbólica e material.
Conforme o texto analisado no City Journal, a prevalência dessa lógica nas universidades e entre ativistas altera o modo como conflitos são percebidos, com efeitos duradouros sobre diplomacia, segurança e debate democrático.
Entender o papel do terceiro-mundismo no discurso atual não significa negar injustiças históricas ou contemporâneas, significa, antes, avaliar criticamente como categorias amplas e prontas podem apagar nuances e produzir consequências reais no campo político e na vida de civis.
Fontes, City Journal, reproduzido pela Gazeta do Povo, análise de Zineb Riboua, “The Third-Worldist Logic”, adaptada e publicada com permissão.