Uma visão crítica das afirmações de Harari sobre a inexistência de direitos naturais, a relativização da moralidade e a adoção dessas ideias por autoridades e elites globais
Yuval Harari tem se consolidado como referência entre parte da elite mundial, participando de fóruns e debates com empresários e líderes políticos de destaque.
Seu livro Sapiens, lançado em 2011 em hebreu e em 2014 em inglês, alcançou sucesso global, vendeu mais de 25 milhões de cópias e foi traduzida para 65 idiomas, e rendeu a Harari convites para conversar com figuras como Mark Zuckerberg e Klaus Schwab.
Ao mesmo tempo, suas ideias sobre direitos humanos e natureza humana provocam reações fortes, e o encontro recente com Luís Roberto Barroso, em novembro, reacendeu o debate, conforme informação divulgada pela Gazeta do Povo.
Direitos humanos, ficção coletiva e as frases que chocam
Harari parte de um pressuposto materialista e evolucionista, segundo o qual muitas instituições humanas são frutos da imaginação coletiva. Em Sapiens ele afirma, por exemplo, que, “Nenhuma dessas coisas existe fora das histórias que as pessoas inventam e contam umas às outras. Não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos”.
Essa posição leva-o a tratar os direitos humanos como uma convenção útil, não como algo inerente ao ser humano. Na sequência, Harari sugere que, mesmo conhecendo essa “realidade”, elites e governantes deveriam preservar a crença das massas nessas ficções por razões práticas.
Ele chega a parafrasear Voltaire e criar uma versão própria da advertência, escrevendo, “O Homo sapiens não tem direitos naturais, assim como aranhas, hienas e chimpanzés não têm direitos naturais. Mas não conte isso aos nossos servos, para que eles não nos matem durante a noite”, frase que concentra o choque provocador de suas ideias.
Natureza humana e a perda de uma régua moral
Outro eixo central do argumento de Harari é a rejeição de uma natureza humana normativa. Ele defende que o termo “natural” não deve servir de critério moral absoluto, porque tudo o que existe é, por definição, natural.
Com isso, discussões sobre o que seria “anti-natureza”, em especial em temas sexuais, são tratadas por ele como construções históricas e teológicas, mais do que biológicas. Harari afirma que distinções morais advêm de narrativas culturais, não de leis da natureza.
Críticos apontam que essa posição abre espaço para dilemas éticos importantes. Se não há um padrão objetivo para distinguir entre o aceitável e o condenável, como fundamentar proibições contra crimes graves, ou mesmo manter a noção de dignidade que embasa os direitos humanos?
Repercussões políticas e culturais entre a elite
As ideias de Harari não ficam restritas ao campo teórico, porque influenciam debates em fóruns e ocasionam aproximações com líderes e autoridades. Em novembro, o autor participou de um painel com Luciano Huck no evento Fronteiras do Pensamento, e o ex-ministro do STF Luís Roberto Barroso publicou em seu Instagram, “Saí do meu auto-recolhimento desses dias para um encontro com um dos grandes intelectuais globais da atualidade, Yuval Noah Harari”, o que sinaliza a receptividade de setores da elite às suas teses.
Além disso, Harari já recebeu endossos públicos de personalidades como Bill Gates, e dialogou com o fundador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, entre outros nomes influentes. Para críticos, essa convergência torna mais inquietante a circulação de ideias que relativizam direitos e valores tidos como fundamentais.
O debate público, as consequências práticas e as perguntas em aberto
Questionamentos centrais permanecem, e demandam respostas claras. Se direitos humanos são, na visão de Harari, ficções úteis, quem decide quais ficções permanecerão e por que? Como preservar proteção a indivíduos e minorias se a moral pública for reduzida a conveniência?
Defensores de Harari argumentam que reconhecer a construção social de instituições não implica destruí-las, e que a sua intenção é abrir espaço para reflexão crítica sobre como manter práticas justas e eficazes em um mundo tecnológico e interconectado.
Críticos, no entanto, alertam que a normalização de uma linguagem que descreve direitos como invenções pode enfraquecer proteções legais, e gerar justificativas para políticas utilitaristas que desconsiderem vulnerabilidades.
O encontro de Harari com figuras do poder, e a difusão de suas ideias por meio de best-sellers e palestras, tornam o debate relevante para a sociedade brasileira e global, porque envolve a forma como concebemos justiça, dignidade e as bases da convivência social.